¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, agosto 04, 2008
 
SUMMA AV KARDEMMUMAN



Leitores sempre me consultam sobre viagens. Primeira cautela: não faça o que eu fiz. Isto é, não viaje em julho. É certamente o pior mês para viajar. É estação alta, o que significa quase o dobro do preço em passagens. Como coincide com o período de férias no Brasil, você vai tropeçar com essa brasileirada abominável, cheia de malas enormes. Os hotéis são mais caros, os aeroportos estão repletos de gente, museus e monumentos também. Isso sem falar do calor. Viajei em julho porque queria mostrar o sol da meia-noite à Primeira-Namorada. Não fosse isso, jamais viajaria no verão europeu.

Há gente demais viajando no planetinha. Os grandes aeroportos, como os de Paris, Madri ou Londres, estão se tornando extremamente desconfortáveis. Ao voltar de Paris, acordei às seis da manhã. Embarquei lá pelas onze e não tive tempo nem mesmo de tomar um café. Uma hora até o Charles de Gaulle. Mais de hora no check-in. Mais outra percorrendo esteiras e corredores. Os aeroportos centralizaram o check-in num terminal só e depois o enviam para os de embarque. Para ir de um terminal a outro, você percorre quilômetros por esteiras. Quando pensa que chegou ao destino, cai em um trem. O trem o leva até outra ponta do aeroporto e se você pensa que chegou está enganado: há mais esteiras. Heathrow, então, é uma cidade, talvez maior que Londres. Nesta viagem, pensei em viajar pela Ibéria e despedir-me da Europa em Madri. Quando soube que o vôo tinha escala em Londres, desisti. Topo tudo em uma viagem. Menos uma escala em Heathrow.

Difícil visitar monumentos. Em maio passado, quando viajava com uma amiga, pensei em mostrar-lhe a Notre Dame. Era feriadão na França e uma fila quilométrica me esperava diante da catedral. Desisti. La Sainte Chapelle, nem pensar. Nesta viagem, a Primeira-Namorada quis ver Versailles. Fui até lá. Uma multidão assustadora formava um mar humano para entrar no palácio. Ela enfrentou o mar. Quanto a mim, fiquei na praia, num boteco próximo. Não há monumento no mundo que me faça esperar uma hora em uma fila. Por sorte, os monumentos sempre têm um boteco nas proximidades.

Há gente demais viajando, dizia. Fala-se que em 2.020 teremos cem milhões de chineses fazendo turismo. Isto é, não vai sobrar espaço nem para fotos. A Europa está tentando controlar a entrada de migrantes. No que a mim diz respeito, acho que precisava controlar a entrada de turistas. Especialmente dos que viajam em excursões. Nada mais antipático que uma malta de brasileiros ou japoneses atopetando as ruas de uma cidade.

Excursões até podem ser uma solução, para gente idosa que tem dificuldades de locomoção e mal consegue carregar malas. Fora disso, é estupidez digna de analfabetos. Para começar, você não está no estrangeiro, mas envolto por uma bolha de conterrâneos. Todos falando a mesma língua. Ora, se todos falam português à sua volta, isto significa que você não saiu do Brasil. Pensa que viajou mas não viajou.

Numa excursão, o viajante não consegue fazer a viagem que quer. Faz a viagem que a agência propõe. Isto significa acordar de madrugada, tomar café às pressas e visitar às vezes três ou quatro cidades num dia. Você paga caro e não vê nada. E ainda perde a suprema ventura de sentir-se perdido em uma cidade desconhecida. A meu ver, um dos grandes prazeres de uma viagem.

O que leva uma pessoa a optar por uma excursão, a meu ver, é o medo. Neste medo reside o lucro das agências de turismo. Medo de enfrentar geografia desconhecida, medo de não falar o idioma do país. Ora, para geografias desconhecidas existem mapas. A primeira providência que se toma ao chegar a uma cidade é comprar um mapa. Quanto ao idioma, por favor: se o desconhece, faça um cursinho rápido antes de viajar. Além de facilitar sua viagem, você terá adquirido um pouco mais de cultura.

Em meus dias de universidade, uma colega de magistério viajou à Espanha. Passei a ela os endereços dos melhores restaurantes de Madri. Na volta, perguntei se havia gostado de minhas dicas. Ela não fora a nenhum. Comeu apenas em Mcdonalds. Era o medo de enfrentar o cardápio, de comer algo estranho ao palato. Num Mcdonald, ela sempre sabia o que iria comer. Claro que cortei relações com a pessoa. Não cultivo amizades com quem come em Mcdonalds.

Uma outra colega, professora de francês, foi a Paris. Repassei-lhe os bons endereços. Ao voltar, me contou que tomou um táxi para ir da Rue Cujas, em frente à Sorbonne, até a Notre Dame. Ora, é um trajeto curto, que não toma vinte minutos a pé. Sem falar que é um dos mais belos passeios de Paris, você percorre o boulevard Saint Michel, atravessa o Sena e chega à catedral. A analfabeta atroz tomou um táxi.

Claro que também cortei relações com ela. Tolerância tem limites.