¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, setembro 01, 2008
 
AINDA O RACISMO



Caro Janer,

tenho uma historinha sobre racismo e a universidade. Nunca a contei antes por falta de tempo, mas é bem ilustrativa. Sou dentista, nordestino - mais especificamente piauiense. Uma das minhas especializações é em Saúde Pública, feita na UFPI, onde também me formei.

Durante uma disciplina da pós-graduação, que hoje nem lembro mais qual foi, discutíamos levantamento de dados epidemiológicos e uma professora doutora soltou a pérola de sabedoria e iluminação: "... essa questão melhorou muito no governo Lula, com a inclusão do quesito raça nos questionários de saúde do ministério".

Fiquei chocado, mas dei a ela o benefício da dúvida. Vai que, mesmo sendo "dotôra", era só ignorância...

Qual nada. Era molestamento ideológico mesmo. Argumentei no ato que tratar separação de raças, ainda mais em um país miscigenado como o Brasil, como progresso era coisa da Alemanha nazista. Que quem fazia comissão para decidir quem é de uma raça ou não (como faz a Universidade Estadual do Piauí para decidir quem é negro) agia como Hitler com os judeus. Que nem base científica para classificação em raças existia, já que à luz da ciência, a única raça existente é a raça humana. Que cor da pele não é raça, é fenótipo, características físicas de variação anatômica, tal como a cor dos olhos e se ela consideraria racismo alguém conseguir ingresso no ensino superior por possuir olhos azuis. Que há poucos anos atrás, quando não havia benefícios destinado a negros, separá-los da sociedade por qualquer motivação era considerado de grosseiro racismo e a ordem era a inclusão com igualdade de direitos. Que não havia racismo "do bem" e que "discriminação positiva" era o nome politicamente correto disto.

Por fim, expliquei que a única possível hipótese para o uso de raça em questionários de saúde, não se aplica ao Brasil. Explico. Nos EUA algumas pouquíssimas drogas tem desempenho melhor em negros que em brancos, porém isso somente pôde ser pesquisado e aplicado lá porque o forte racismo impediu a mistura, permitindo que um grupo genético que tinha origem comum (regiões delimitadas da África) mantivesse reproduzindo-se entre si durante algumas gerações. E que, mesmo considerando isto, as pesquisas são contestadas, os resultados não são conclusivos e a suposta vantagem é pífia. Ufa...

Apresentados os argumentos sua resposta foi: "aqui não é lugar para discutir isso!".

Ora, veja só! Ela derrama proselitismo e má fé sobre os alunos em sua prática docente e quando confrontada "não quer discutir o assunto", como se a questão fosse só uma opinião de mesa de bar. Singelamente eu perguntei (a sério, sem nenhum deboche na voz): "se ali, na pós-graduação, preparando sanitaristas que formarão as futuras políticas públicas de saúde, não era lugar para discutir aquilo, onde seria mais adequado?".

Ela me ignorou olimpicamente e continuou com a aula.

E os outros alunos, você pode perguntar? Cabe aqui uma explicação. Sou considerado o "revoltado". Aquele que sempre tem algo a dizer nas considerações, bizarras ou não, dos professores. "ih, lá vem o Emerson com as coisas dele...!". Os alunos não gostam disso porque quanto mais "participativa" a aula, mais ela demora. Portanto quanto menos intervenções, mais rápido o professor esgota o assunto (mesmo que o assunto esteja errado) e acaba a aula. Se ainda preciso dizer, não, eles não gostam de questionamentos.

Não é que eles concordem ou discordem, eles simplesmente querem ir embora mais cedo pra casa. É a cara do povinho bovino que nós somos.

Abraços.

Emerson Viana
Ortodontista
Teresina - PI