¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, setembro 06, 2008
 
A DURA VIDA DE CAMPUS


Leio na Folha de São Paulo que o Supremo Tribunal Federal determinou ontem que uma professora universitária devolva R$ 160 mil ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Ela estudou no exterior com bolsa e não voltou ao país logo após a conclusão do curso. O processo foi iniciado em 1987. A professora tinha bolsa integral para estudar na University of Essex (Inglaterra) e ficou morando no exterior após terminar o curso. Para o STF, ao aceitar a bolsa, a professora assumiu compromisso contratual de retornar ao Brasil ao término do curso.

Miracolo! Mas vejamos se entendi bem. Se o processo começou em 1987, na época a professora já deveria ser entrada em anos, pois jovens não conseguem tais mordomias. Digamos que tivesse uns trinta anos. Es un suponer, como dizem os espanhóis. Estamos em 2008. Quer dizer, a discussão sobre a elementar obrigação de devolver a bolsa durou apenas... 21 anos. Se a professora conseguir retardar o pagamento por mais uns vinte, morrerá envolta pela paz dos justos.

Em minha curta passagem pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), vi poucas e boas. Professores com bolsas para mestrado e doutorado, no Brasil e no Exterior, que passavam quatro ou mais anos longe da sala de aula e voltavam de mãos abanando. Professores com dedicação exclusiva que mantinham seus escritórios ou consultórios sem que a universidade com isto se importasse. Um dos casos mais patéticos que presenciei, foi de uma professora que fora fazer mestrado em Curitiba. Quatro anos depois, não conseguira fazer mestrado. Espichou sua bolsa para um doutorado na USP. Mais quatro anos e nada feito.

Numa daquelas reuniões de Departamento – que prefiro chamar de aquelarres – estava sendo votado mais dois anos para uma bolsa em Lisboa. Interpelei o chefe do Departamento: “Escuta, essa moça passou oito anos fora, não conseguiu concluir trabalho nenhum. E agora vai ser premiada com dois anos em Lisboa?”

“É um problema humano” – me esclareceu o professor –. “Ela se divorciou há pouco e outro dia apareceu com um olho roxo. Não pode ficar em Florianópolis”. Entendi as humanísticas preocupações de meu colega. E sugeri: vamos fazer o seguinte. Eu peço pra minha mulher me dar duas taponas na cara e vocês me dão quatro anos em Lisboa. Solicitação indeferida.

A irmã desta moça, também professora, também conseguiu bolsa em Lisboa. Passando por lá, fui conversar com ela. Já havia encontrado um Joaquim – o Quim, como o chamava – mas não o tema de sua tese. Acabou casando com um espanhol. Pelas últimas notícias que tive, vivia em Valladollid.

Caso ainda mais patético. Uma professora, já cinqüentona, recebeu bolsa para estudar Lingüística em Paris. Encontrei-a por lá. A coitada era uma míope atroz e tinha dificuldades até para atravessar ruas, não conseguia ver os sinais de trânsito. Claro que não concluiu tese alguma. Surgiu então um qüiproquó. A Reitoria quis cortar-lhe a bolsa. Mas para isso, sei lá porque razões, ela tinha de ser comunicada em território nacional. Ou seja, se ela voltasse ao Brasil perderia a bolsa. Simples: não voltou. Enquanto isto, continuava recebendo a bolsa.

Houve ainda o caso de dois chilenos, marido e mulher. Eram conhecidos como o Casal. Bueno, o Casal conseguiu bolsa para a Inglaterra. E nunca mais voltou. E deles nada mais se soube. Teve ainda um outro caso mais emblemático. Um professor conseguiu uma bolsa para a Bélgica. Sem mesmo ir até lá, criou uma conta bancária em Bruxelas. E acabava remetendo sua bolsa para Florianópolis. Salvou sua lavoura. Com a grana da bolsa, construiu casa em Itapema.

E muito mais corrupção vi. É curioso observar que a imprensa cai em cima da corrupção dos políticos e administradores, mas jamais fala desta corrupção universitária. Recentemente, dois reitores foram destituídos por abusos em seus cartões de crédito. Ora, isto é apenas a ponta emersa do iceberg. A universidade brasileira é profundamente corrupta, e esta corrupção virou norma.

Sempre considerei que tais professores relapsos deveriam devolver ao Erário tudo que receberam durante suas bolsas. Pela primeira vez na vida, vejo uma professora sendo condenada à devolução. Mas isso só após duas décadas de tramitação de um processo. Certamente existirão milhares de professores nesta situação. Serão condenados a devolver o que receberam? Duvido.

Na época, escrevi uma série de artigos, onde considerava que a UFSCTUR era a mais conveniente agência de turismo do país. Você fazia quatro ou mais anos de turismo, com passagem, estadia e passadio pagos, sem gastar um vintém. Pelo contrário, ganhava para isso. Fui processado pelo reitor. Contestei a ação, o reitor teve de tirar o cavalinho da chuva. Mas continuou tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Enfim, a decisão do STF é um milagre. Como todos os milagres, ocorre de séculos em séculos. Enquanto isso, continua a festança na universidade com o dinheiro público. Dura é a vida de campus.