¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, setembro 02, 2008
 
FIDELIDADE BUBÔNICA?


Doutos cientistas já buscaram o gene do alcoolismo. Não me consta que tenha sido encontrado. Se o fosse, seria muito oportuno. Qualquer pinguço poderia justificar-se cientificamente: "Que posso fazer? É genético. Garçom, dose dupla, por favor". Nada mais confortável que atribuir a uma predestinação biológica o que depende de uma decisão.

Buscou-se depois um gene bem mais conveniente, o do homossexualismo. Mas os engenheiros genéticos parecem ser avessos a leituras históricas. No Ocidente, o homossexualismo era um comportamento normal e até mesmo desejável, antes que o cristianismo contaminasse a cultura helênica com a camisa-de-força de seu conceito de amor, como algo único e direcionado ao sexo oposto. Aliás, este poderoso mito literário ocidental, o amor, nasce na Grécia, com os poemas de Safo de Lesbos, e é antes de tudo homossexual. Em todo caso, uma causa biológica para esta opção facilitaria a vida de muitos efebos sem maior cultura histórica. “É genético, querido”.

Buscou-se também o gene da inteligência. Epa! Terreno minado. Imagine se este gene fosse politicamente incorreto, com preferência por certas raças. Encontrá-lo seria um desastre. A antropologia contemporânea mais parece tango de Discépolo: todo es igual, nada es mejor. Deixa pra lá, melhor não insistir nesta pesquisa.

Há uns bons dez anos, os jornais anunciaram outro brilhante achado dos cientistas. Pois estes senhores conseguiram produzir, por meio de engenharia genética, um rato que permanece fiel a um parceiro. Esse animal normalmente fútil, dizem as agências, tornou-se um amante mais fiel depois de receber genes do arganaz, um roedor conhecido por sua fidelidade. Segundo o resultado, a dedicação a um só parceiro, durante a vida toda, talvez seja uma questão de presença no cérebro de uma determinada química, que associa o amor ao hábito.

Estudos com os arganazes mostraram que a sensibilidade ao hormônio vasopressina determinava se o macho da espécie acasalava com várias fêmeas ou se formava um casal com um delas para o resto da vida. Para mudar o comportamento roedores, bastou manipular o mecanismo regulatório da vasopressina.

Escrevi na época: “Quando cientista brinca com ratos, cuidado: no fundo ele está ensaiando uma futura brincadeira conosco. Isolada aquela "determinada química" do arganaz no cérebro humano, a ciência terá finalmente encontrado a cura para comportamentos desviados do sagrado conceito de amor. Papa, padres e moralistas poderão poupar saliva em defesa da fidelidade conjugal. Um genzinho de arganaz valerá mais que mil discursos contra o adultério. Dominado pela ciência, o amor poderá ser controlado com um implante banal”.

Pois, aconteceu. Segundo o Karolinska Institut, de Estocolmo, os homens são mais fiéis quando não têm a variante de um certo gene que influi na atividade do cérebro. Segundo o Washington Post, os homens com duas cópias do gene têm duplo risco de experimentar conflitos na relação, em comparação com os homens sem nenhuma cópia. Quer dizer, ninguém é responsável por ser infiel. “Tenho o gene duplicado, querida”.

E eu que pensava que somos infiéis porque a vizinha é linda. Porque aquela aluna quer uma pedagogia mais personalizada. Porque aquela moça no bar nos olhou com um olhar mais quente. Porque as formas daquela transeunte distraída mexeram com nossos hormônios. Em suma, pela elementar razão de que... somos livres. Da mesma forma, sempre me pareceu que permanecer fiel a um parceiro fosse decisão a ser tomada por cada um. Nada disso. Segundo os doutos cientistas, liberdade é mito. Você não escolhe nada, a biologia é que determina suas ações. Tudo era genético, o arganaz que o diga.

Como entender então a revolução sexual dos anos 60? De repente, depois da pílula, o gene duplicado acometeu meio mundo? Ou seja, ser homossexual, ser fiel ou infiel, não dependem mais de um ato de volição. Mas são determinantes genéticos.

Contem outra, senhores cientistas. O que vejo por trás desta busca de genes para determinar comportamentos é o desejo de absolver condutas que não são politicamente corretas. Por mais liberal que seja nossa época, o homem que bebe está sendo cada vez mais discriminado. Os homossexuais construíram suas defesas, mas ainda constituem, para boa parte da sociedade, uma anomalia. Quanto à infidelidade, prática que no Ocidente não constitui crime, parece que está virando pecado. Ora, pecado só existe para quem nele crê. Eu, por exemplo, sou um homem sem pecados. Pois não aceito a noção de pecado. Quem quiser postular minha canonização, terá uma causa fácil pela frente.

Esta busca de genes para justificar atitudes ante a vida nega toda capacidade de uma pessoa tomar decisões. Não me pretendo cientista. Mas não posso aceitar uma ciência que nega a humana capacidade de optar por esta ou aquela conduta. Que os ratos mudem de comportamento através de manipulação genética, até que entendo.

Mas os homens não são ratos. Ou estarão próximos os dias da fidelidade bubônica?