¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, setembro 08, 2008
 
NA MINHA PICANHA NINGUÉM TASCA



Gaúcho sendo, não consigo entender uma refeição sem carne. Se não houver carne, tenho a impressão que não almocei. Médicos e amigos me recomendam verduras e legumes. Legumes, vá lá. Quanto a verduras, até pode ser. Mas não gosto. Penso que os gaúchos, de modo geral, são um tanto avessos ao consumo de verduras. Quando vivia no campo, tínhamos uma horta em nosso rancho. Mas não lembro muito de ver meus pais ou parentes consumir verdura. Verdura era pasto. Comida era carne. Ou não era comida.

Carnívoro desde o berço, gosto de viajar em busca das boas carnes. Como bom carnívoro, gosto da carne perto do cru. Adorei freqüentar em Madri um restaurante chamado Comidas Naturales. Lá tudo era natural, tanto o boi como os cordeiros ou porcos. E tenho muita pena dos vegetarianos. São pessoas que se privam de um dos bons prazeres da vida.

"Comece com um dia livre de carne por semana e vá diminuindo dali para a frente" - é o que propõe o prêmio Nobel da Paz Rajendra Pachauri, chefe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU. É o que leio no jornal sueco Aftonbladet. Para Pachauri, que é hindu e vegetariano, uma mudança de dieta é importante para diminuir o efeito estufa e outros problemas do meio-ambiente, que estão associados à alimentação do gado e outros animais.

Essa agora! Que proíbam o cigarro, entendo. Mas por favor! Não mexam em minha picanha. Que Pachauri considere as vacas sagradas, nada contra. Que seja vegetariano, bom proveito. Quanto a pretender que a humanidade deixe de ser carnívora, isso é privar-nos de um dos bons prazeres da vida.

Judeus e muçulmanos já se privam das delícias de um cochinillo. Os hindus não comem bois. Ocorre que não sou judeu, nem muçulmano, nem hindu. Se antes os profetas brandiam um apocalipse de fogo e flagelos, o moderno apocalipse é o efeito estufa. Não por acaso, a nova chantagem tomou corpo após a queda do Muro e o desmoronamento do comunismo. Como já é ridículo combater o capitalismo em nome da dialética ou da luta de classes, a luta contra os países desenvolvidos é feita em nome do meio-ambiente.

"É relativamente simples mudar seus hábitos alimentares em comparação a mudar seus meios de transporte" - diz Pachauri, que está fazendo hoje em Londres uma palestra sobre como a produção e o consumo de carne afetam o aquecimento global.

Ora, a humanidade chegou até aqui graças à proteína animal. Se Pachauri gosta de pastar, que paste bem. Mas não venha brandir o apocalipse aos que cultivam a bona-chira.