¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, setembro 05, 2008
 
O GRANDE AUSENTE EM FRANKFURT



A Feira do Livro de Frankfurt, de 2010, terá a Argentina como convidada de honra. O governo alemão deu a conhecer o eixo de sua proposta. Serão homenageados quatro importantes escritores daquele país, a saber: Diego Maradona, Carlos Gardel, Eva Duarte de Perón e Ernesto Che Guevara. Parece mentira mas não é.

Escritores argentinos já estão chiando. Um grupo está propondo a inclusão de Roberto Arlt, Alfonsina Storni, Manuel Puig, Alejandra Pizarnik y Rodolfo Walsh até Borges y Cortázar. O que não me parece muito justo. Com Roberto Arlt e Borges – por sinal dois autores que traduzi – de acordo. Quem escreveu Los Siete Locos não pode ser esquecido numa homenagem à Argentina. Muito menos quem escreveu Ficciones. Alfonsina Storni? Vá lá. Os demais não me parecem muito representativos. Mas pelo menos são escritores.

Seja como for, Ernesto Sábato não poderia faltar nessa lista. Apesar do desastre que foi Abbadón, el Exterminador, onde o Che Guevara é canonizado, Sábato escreveu El Túnel e Sobre Heroes y Tumbas. Sem falar de ensaios importantes como Heterodoxia, El Escritor y sus Fantasmas, Hombres y Engrenajes. Tive a honra de traduzir todos estes livros - e mais alguns - ao português.

Mas o grande esquecido não foi Arlt, Borges nem Sábato. E sim José Hernández, o poeta maior do continente. E os alemães não podem alegar que desconhecem Martín Fierro. Alguns anos antes da reunificação alemã, estive em Berlim Ocidental, em plena "Semana Martín Fierro". Era hóspede de uma estudante de Letras de origem italiana, nascida no Rio Grande do Sul. Ela não sabia se José Hernández era açougueiro ou alfaiate. Quando soube que o poema começara a ser escrito no exílio do senador argentino em Santana do Livramento, achou que eu delirava. Foi consultar uma enciclopédia literária alemã, lá estaria a verdade. Pois lá estava a verdade: os dicionaristas concediam várias páginas a nosso vizinho e o comparavam – nada mais, nada menos – a Homero.