¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, setembro 01, 2008
 
OPÇÃO PELA ESTUPIDEZ


Leio no Estadão que nos 22 mil prédios residenciais de São Paulo, os cerca de 4,6 milhões de paulistanos que moram em apartamentos pagam anualmente R$ 10,5 bilhões em taxas de condomínio, valor que já ultrapassa o arrecadado pela cidade em impostos municipais - R$ 8,9 bilhões no ano passado. Segundo estudo da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios (AABIC-SP), o valor médio da taxa condominial paga em São Paulo em junho deste ano foi de R$ 665, variando de R$ 243 para apartamentos com um dormitório a R$ 1.401 para apartamentos de quatro quartos. Há também apartamentos que pagam 15 mil reais de condomínio.

Os custos tendem a aumentar e não seria de duvidar que, em futuro não muito distante, se equiparem aos aluguéis ou mesmo superem o valor destes. Por uma razão muito simples: cada prédio precisa de vários funcionários para garantir a própria segurança. O que seria função da polícia – em suma, do Estado – foi delegado ao cidadão. E haja grades, cercas eletrificadas, guaritas blindadas, circuitos internos de televisão e pessoas para cuidar de tudo isso. Além dos porteiros, são necessários manobristas. E tudo isto multiplicado por três, para cobrir 24 horas. É curioso notar que os paulistanos vêem esta anomalia como se fosse uma fatalidade, e não desídia do Estado.

Há alguns anos, recebi a visita de uma amiga sabra. Mal saiu à rua, começou a fotografar as grades e cercas eletrificadas dos prédios. Perguntei-lhe que graça achava em fotografar aquilo. “É que nunca vi algo igual”. Ela, que vivia em Israel, Estado onde conflitos e atentados terroristas são permanentes, nunca vira um aparato de segurança como o de São Paulo. Isso sem falar nos vigilantes armados que protegem os prédios. Que me conste, não podem estar armados. Mas estão. Como a bandidagem sabe disso, tem-se uma relativa segurança nestes prédios. Relativa, sublinho. Pois aumentam a cada dia os arrastões em prédios de luxo. Apesar de toda a segurança que protege os condomínios, sempre se encontra um meio de burlá-la.

Só se espanta quem viaja e conhece um pouco de mundo. Vá a Paris, Roma, Bruxelas. Ou a Estocolmo, Berlim ou Madri. De modo geral, os prédios sequer têm porteiros. Você tem apenas um código númerico que digita numa fechadura à entrada do prédio. A concierge tem mais por função manter a limpeza das escadarias. Tampouco há garagens. Os carros, que fiquem nas ruas. Aqui em São Paulo, um prédio com uma só vaga na garagem é desvalorizado. Há unidades residenciais de um ou dois quartos, mas com três vagas na garagem.

Os paulistanos – e não só os paulistanos, bem entendido – elegeram um modo estúpido de viver. E não há indício algum de que algum dia optem pela inteligência.