¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, setembro 03, 2008
 
QUANDO O ÓBVIO OFENDE


“É muito fácil sentar-se aqui, nesta peça, e dizer: “O racismo é horrível!” – declarou o escritor George Steiner, em agosto passado, ao jornal espanhol El País – “Mas pergunte-me o mesmo se passo a viver na casa ao lado de uma família jamaicana com seis filhos que escutam reggae e rock and roll todo o dia. Ou quando meu assessor venha e me diga que o valor de minha propriedade caiu a pique”.

Escândalo no Reino Unido. Intelectuais se dividiram entre os que denunciam o escritor por “ofensas generalizadas”, tendo o Conselho Muçulmano à frente, e os que defendem a liberdade de expressão. Steiner, nascido em Paris, em 1929, é considerado um dos mais sofisticados intelectuais do circuito universitário anglo-saxão do século XX. Ex-professor de literatura comparada em Cambridge, é mais conhecido por seu ensaio O Leitor Incomum, de 1978, no qual analisa, a partir de uma pintura de Jean-Baptiste Chardin, a dedicação completa e a total absorção do leitor setecentista pelo livro. (O livro foi traduzido no Brasil pela Record, em 2001). A busca do conhecimento e da sabedoria exigia um ritual próprio, uma entrega da mente e dos sentidos em função de poder entender as palavras e o seu significado. Este ato reverencial, solitário, quase talmúdico, de aproximação com o livro é algo que se perdeu, diz Steiner.

O óbvio ofende. É claro que nenhum europeu de souche apreciaria tal vizinhança, muito menos um intelectual que tem uma reverência sagrada pela leitura. A Europa tem seu modus vivendi, do qual faz parte o silêncio das cidades. Em verdade, o que está em jogo não é o racismo, mas o desrespeito dos imigrantes aos códigos de conduta do velho continente. Este conflito está se generalizando nos países europeus em função dos muçulmanos. A prece é um dos cinco pilares do Islã e os crentes devem ser chamados pelo muezim, cinco vezes por dia, do alto de um minarete. E os muezins já descobriram os amplificadores de som. Imagine você morando nas proximidades de uma mesquita e tendo de ouvir todos os dias, cinco vezes por dia, a voz esganiçada – e amplificada – de um sacerdote conclamando os fiéis às orações.

Os imigrantes, conforme seus hábitos, desvalorizam não só imóveis como zonas inteiras residenciais. Em Paris, logo abaixo de Montmartre, se situa a Goutte d’Or, bairro árabe onde um francês hoje não ousa entrar à noite. E de dia, o evita. À medida que o bairro se esparrama, os preços de imóveis vão caindo em ondas. Certa vez, uma colega de Literatura Comparada, que morava no 16ème, resolveu ampliar seu pequeno studio. Havia um corredor cego ao lado e ela destruiu uma parede e o integrou a seu apartamento. Escândalo na administração do edifício. Que ela não podia fazer aquilo, que apesar de o corredor não levar a lugar nenhum era propriedade comum do prédio.

Ela resolveu o impasse com serenidade. “Ok! Mas eu preciso de mais espaço. Vou então vender meu studio. Aliás, já há um certo M. Mahamoud interessado”. Ficou o dito pelo não dito e não se falou mais no assunto.

Me ocorre ainda caso ocorrido entre nós, há várias décadas, em Porto Alegre. Fora construído, não longe do centro, um edifício de alto padrão, um apartamento por andar, creio que se chamava Foraget. Um cidadão, munido de uma procuração, comprou uma das unidades. Alguns dias depois, chegaram os novos proprietários, uma tribo de ciganos com seus colchões e tachos. O condomínio se reuniu e só foi encontrada uma solução: recomprar dos ciganos o apartamento, pelo preço que eles pedissem.

É desconfortável o convívio de pessoas civilizadas com pessoas incivilizadas. Os sedizentes humanistas que condenam Steiner certamente também não gostariam de uma convivência de parede-meia com os jamaicanos. Nenhuma pessoa culta gosta da proximidade de bárbaros, que trazem consigo os bárbaros ruídos de suas bárbaras civilizações.

Mas ai de quem ouse afirmar o óbvio. Anátema seja!