¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, outubro 05, 2008
 
BENTO E BISPOS
ME DÃO RAZÃO



Alvíssaras! Bento XVI nos trouxe hoje de manhã uma boa notícia, ao abrir a 12ª Assembléia do Sínodo de Bispos que se celebra em Roma. Segundo Sua Santidade, há uma perda de influência do cristianismo em países que em outros tempos foram “ricos em fé e em vocações”, devido à “influência nociva e destrutiva de certa cultura moderna”, na qual muitos decidiram que “Deus morreu”.

No que estou absolutamente de acordo com o vice-Deus. Há horas venho afirmando que cristianismo e tabagismo estão se deslocando para o Terceiro Mundo. No Primeiro, a tendência é jogar fora tanto o cigarro como Deus. Estou de acordo, com uma ressalva. Não é que as pessoas tenham decidido que Deus morreu. Isto era um wishful thinking de Nietzsche, que acreditava na sensatez humana. Está expresso no Assim falava Zaratustra. Gênio, Nietzsche era também ingênuo. Acontecendo que, em nossa época, não mais é possível aceitar o Deus milenar e castrador proposto pela Igreja.

O cristianismo pode até estar perdendo influência, mas a idéia de Deus não morre. Todos os dias surgem novas religiões, sempre mais tolerantes, que fogem ao leito de Procusto imposto pelo cristianismo. Ainda na semana passada, Bento XVI se manifestava contra os anticoncepcionais. Sem falar que a Igreja de Roma é um dos fatores responsáveis pela proliferação da Aids, particularmente nos países católicos africanos, por sua teimosia em não aceitar o uso de preservativos. A oposição às relações pré-matrimoniais, ao homossexualismo, ao divórcio, ao aborto e a pesquisas científicas são outros fatores que devem render-lhe não poucas deserções. Gostei da homilia de Sua Santidade. Sempre é bom saber que a superstição perde terreno.

Pena que falou demais. Ante esta situação, Bento perguntou-se se “quando se elimina Deus do horizonte próprio se pode ser certamente feliz”? Pergunta meramente retórica, que o vice-Deus se apressa em responder que, “ao final, o homem se encontra mais só e a sociedade mais dividida e confusa”. O papa também denuncia, nesta nossa cultura moderna, quem decidiu “que Deus morreu e se declara Deus a si mesmo, considerando-se o único artífice de seu próprio destino e o proprietário absoluto do mundo”.

É óbvio que se pode ser feliz sem Deus. Com Deus é que não dá. Pelo menos não com esse que nega a seu rebanho os prazeres do corpo, a liberdade de estabelecer relações com novos parceiros ou com parceiros do mesmo sexo, o direito a recusar uma gravidez indesejada e – sumo anacronismo – a pesquisa científica.

Quanto ao homem encontrar-se mais só, eu diria que é bem melhor estar só do que acompanhado por uma divindade repressora. Dividido e confuso vivia eu, quando acreditava em Deus. O corpo me pedia uma coisa, o tal de Deus ma proibia. A razão me levava a certas conclusões, a fé as interditava. Jamais decidi que Deus morreu. A partir da leitura da Bíblia, lá pelos 15 ou 16 anos, decidi que nunca havia existido. Após um fugaz desespero inicial, fui tomado de uma extraordinária sensação de liberdade. Não me pretendi Deus, como afirma Sua Santidade. Mas me considerei, isto sim, o único artífice de meu próprio destino. Era finalmente dono de meu nariz.

Não digo que me sentisse proprietário absoluto do mundo. Mas conseguia explorá-lo sem medos. E – o melhor de tudo – podia agora gozar sem peias daqueles prazeres que me eram antes proibidos. Se era dividido e confuso, passei a ser um só, e esclarecido.

Uma outra conclusão desta reunião de bispos me conforta. Há horas venho afirmando que os católicos desconhecem a Bíblia. Os príncipes da Igreja me dão razão. Segundo o Instrumentum Laboris, documento de trabalho apresentado para o Sínodo, os senhores bispos estão preocupados pelo desconhecimento da Bíblia entre os fiéis e querem decidir como corrigi-lo, para superar “a indiferença, a ignorância e a confusão sobre as verdades da fé acerca da Palavra de Deus”.

A meu ver, só há uma solução, estimular a leitura do Livro. Mas o risco de perder fiéis será então maior. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia.