¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, outubro 12, 2008
 
BOLSAS CAINDO, APARECIDA BOMBANDO:
SÓ A PALAVRA DIVINA PERMANECE



Bem dizia Sua Santidade que as bolsas caem e a palavra de Deus permanece. Enquanto instituições financeiras vão à falência no mundo todo, o santuário de Aparecida, aqui em São Paulo, está bombando. Segundo o Estadão, os hotéis de Aparecida estão lotados. As fábricas de velas e de imagens dobraram a produção e recusam novos pedidos. Não há como aumentar a fabricação porque falta mão-de-obra na cidade. As lojas estão abarrotadas de todos os tipos de suvenires religiosos, prontas para receber um milhão de romeiros que vão passar por Aparecida até o fim de outubro, 230 mil somente neste sábado e domingo.

Mês passado, eu comentava o mais próspero mercado da fé na Europa, Lourdes, também conhecida como a Disneylândia do catolicismo, com seus 223 hotéis, 14 mil quartos e 28 mil leitos, o que a torna a segunda cidade hoteleira da França, depois de Paris. Com mais de seis milhões de peregrinos por ano, os santuários de Lourdes gerem um orçamento colossal de certa de 30 milhões de euros anuais. Cerca de 12 milhões de euros circulam em dinheiro líquido através das oferendas, caixas de esmolas e coletas, após cada missa. Três outros milhões provêm de doações e legados, solicitados aos crentes por correio, duas vezes por ano. O resto decorre das atividades conexas à peregrinação: hospedagem, restauração, compras em lojas, venda de livros, revistas, CDs, DVDs.

Aparecida não fica longe. Segundo a Associação Comercial, são 1.200 lojas de produtos religiosos, 160 bares e restaurantes e 30 mil leitos em 165 hotéis. Além das lojas, há ainda, na feira, 2.500 barracas, que também vendem artigos de Nossa Senhora Aparecida. Tudo para atender os 8,5 milhões de romeiros que todos os anos passam pelo município. Ainda segundo o Estadão, a cidade conta com cerca de 80 microindústrias voltadas para atender ao comércio local, onde são fabricadas velas, imagens de santos, terços, quadros. Para comer, se hospedar, circular e rezar, o turista acaba gastando, em média, cerca de R$ 50 por dia, o que resulta na movimentação de cerca de R$ 450 milhões por ano. A chuva de dinheiro sobra até para as cidades vizinhas. Se não há mais vagas em Aparecida, os romeiros ficam em outros municípios.

Os governos do país e dos Estados vivem quebrando a cabeça para resolver o problema do desemprego. Ora, Aparecida nos aponta para uma solução singela. Canonizem-se mais santos nossos. Precisamos de santos e mais santos, miríades de santos, santos por todos os cantos, para dar pleno emprego aos brasileiros. Verdade que a produção gerada por tais empregos não passa de vento. Mas a Virgem vende bem e sempre serve para conjurar a crise. Enquanto o Ocidente vive em estado de pânico, a nave da Santa Madre navega serena pelo oceano da fé.

Só na fábrica de velas do empresário Péricles de Moraes, as velas de metro - usadas para pagar promessas - neste mês chegaram a 150 mil unidades. "Sem contar os outros tipos. A produção neste ano teve um aumento de cerca de trinta por cento", comemora. Sua fábrica fornece para o Santuário Nacional, que comercializa as velas nas cores azul e branca, cores que evocam o manto de Nossa Senhora Aparecida.

Verdade que a Igreja já condenou como simonia a venda de bens espirituais. Alexandre VI, por exemplo – aquele papa que me fez nascer no Brasil e não no Uruguai - sofreu tentativa de deposição em 1494, por parte de prelados à frente dos quais aparecia o cardeal Della Rovere, futuro Papa Júlio II. Resistiu, mas continuou a praticar atos imorais, apesar da condenação que lhe dirigiam, entre outros, o padre Girolamo Savonarola. Que foi devidamente preso por ordem papal e condenado à morte. Foi enforcado no dia 25 de maio de 1497 e teve seu corpo queimado para escarmento.

Mas não se fazem mais Savonarolas como antigamente. Simonia virou moeda corrente. A Santa Madre, nestes dias bicudos, sequer pensaria em renunciar aos gordos dividendos do próspero mercado da fé.

De fato, enquanto as bolsas caem, só a palavra de Deus permanece.