¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, outubro 07, 2008
 
COZINHA TEM DONO?


Fadi Abboud, presidente da Associação das Indústrias do Líbano afirmou que pretende iniciar uma batalha jurídica para impedir que companhias internacionais comercializem pratos com nomes tradicionais da cozinha libanesa como quibe, esfiha e falafel. “Empresas brasileiras vendem quibes e esfihas nos Estados Unidos sem mencionar que são produtos libaneses. Queremos provar que esses pratos são reconhecidamente libaneses, e essas empresas estão infringindo leis de direitos de origem ao usar estes nomes" – disse.

Só o que faltava. A partir da bravata do patrioteiro libanês, deduzimos que qualquer país que produz pizzas tem de declarar que pizzas são italianas. E o spaghetti? Seria italiano ou chinês? Segundo Marco Polo, é chinês. E a feijoada, de onde viria? Do Brasil, dirão os patrioteiros nossos. Mas que é o cassoulet, senão uma protofeijoada? Sociólogos e outros ólogos brasileiros pretendem que a feijoada sejam os restos da casa grande, reelaborados pela senzala. Ora, na França nunca houve casa grande nem senzala e lá sempre existiu o cassoulet.

E de onde viria o churrasco? Segundo aqueles sedizentes gaúchos, que acham que o Rio Grande do Sul é o centro do mundo, é claro que o churrasco teria suas origens no Rio Grande do Sul. Ora, em qualquer país onde houve fogo e carne – isto é, em todos os países do mundo – sempre houve carne assada. Da mesma forma, o cochinillo e o cordero lechal. À primeira vista, seriam criações da Espanha. Mas é óbvio que em qualquer lugar do mundo onde existam porcos ou ovelhas, terá ocorrido a alguém a idéia de consumir esses animais com poucos dias de vida. Se a Espanha tem os melhores cochinillos e corderos lechales do mundo, bom, isso é questão que tem a ver com o talento dos assadores espanhóis. Ou com a potência de seus fornos.

Será o mechoui uma exclusividade do Marrocos, Tunísia e Argélia? Ora, onde existir cordeiro, existe ipso facto o mechoui. O cuscuz argelino pertence à Argélia? Onde houver carne e semolina, existe o cuscuz, e não estou falando do baiano. Que é a esfiha senão um pastel? Onde houver massa e carne, massa e queijo, massa e camarão, massa e qualquer outra coisa, sempre haverá pastéis.

Cozinha não é, em princípio, algo complicado. Man tager vad man haver – dizia Kaysa Varg, uma autora sueca de livros de culinária. Isto é, a gente pega o que a gente tem. Ninguém pretenderá que peixes crus – ou carne crua – pertençam à cozinha de um país qualquer. Pertencem à cozinha de onde quer que haja carne ou peixe.

Segundo Abboud, as empresas israelenses são as que mais se apropriam indevidamente dos pratos. "A cada dia mais produtos típicos libaneses são comercializados como se fossem originários de Israel", reclama. O libanês diz que a estratégia para levar o caso aos tribunais internacionais é registrar os ingredientes e as receitas dos pratos disputados junto ao governo do Líbano. As autoridades libanesas acionariam a União Européia em um primeiro passo para a disputa ser reconhecida pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Ora, Israel e Líbano pertencem à mesma geografia e é normal que tenham cozinhas semelhantes. Cozinha depende de geografia. Em uma mesma geografia, em pouco difere a cozinha. Você come carne de rena ou alce na Escandinávia, mas dificilmente vai encontrá-las em Paris ou São Paulo. O smörgåsbord pode se pretender escandinavo, mas qualquer bufê de frutos de mar, em qualquer lugar do mundo, é um smörgåsbord. Jamais ocorreria a suecos ou dinamarqueses registrar a receita como sua. Em Paris, são muito apreciadas as coquilles Saint Jacques. É o Ostracus malacus, do mar Cantábrico. Galego algum pretendeu que as vieiras - como nós as chamamos - sejam cozinha local.

Abboud cita o precedente aberto pelos gregos no caso do queijo fetá. A União Européia teria decidido, há seis anos, que o queijo fetá pode receber tal nome apenas se for produzido em algumas regiões da Grécia e sob condições específicas. A Justiça européia decidiu que o queijo fetá "é amplamente associado com a história grega e vem sendo produzido com este nome há seis mil anos". Que seja. Hoje você come fetá em qualquer país europeu, sem nenhuma indicação de origem. E duvido que seja importado da Grécia. Sem ir mais longe, imagine proibir chamar pizza de pizza em São Paulo, só porque pizza teria surgido na Itália.

No fundo, uma guerrilha culinária entre árabes e judeus. Segundo um cidadão de Tel Aviv, Jacob Erickson, "se os libaneses vão contestar o direito israelense de produzir e comercializar os alimentos, espero que contestem também em todo o Oriente Médio e em uma esfera global. Esses alimentos pertencem ao Oriente Médio e ao território que era conhecido como Palestina, que agora se chama Israel". Para um outro leitor, identificado como 'palestino', "esses são pratos conhecidos na Síria, Palestina, Jordânia e Egito e são tradicionais no Oriente Médio há tempos. A comida deve ficar de fora da política".

Abboud não passa de um patrioteiro ridículo. Em nada difere desses que acham que feijoada é um prato brasileiro. Se a moda pega, mais dia menos dia algum Afonso Celso nosso pretenderá registrá-la na OMC como cozinha exclusivamente tupiniquim.