¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, outubro 09, 2008
 
CULINÁRIA E FUNDAMENTALISMO


Comentei na terça-feira a pretensão de Fadi Abboud, presidente da Associação das Indústrias do Líbano, que iniciou uma batalha jurídica para impedir que companhias internacionais comercializem pratos com nomes tradicionais da cozinha libanesa como quibe, esfiha e falafel. O problema parece não ser precisamente este. Em declarações aos jornais de hoje, Abboud diz que seu objetivo é impedir que Israel continue anunciando alguns desses pratos como típicos da culinária israelense. "A situação é grave. Em Londres, produtos como a coalhada e o hommus são vendidos como se fossem gregos e israelenses".

Indagado sobre se havia como provar que o quibe, por exemplo, não seria originário da Síria ou mesmo da região da Palestina histórica, onde hoje está Israel, Abboud respondeu que o problema não é com os palestinos ou os sírios, que até poderiam patentear os nomes com os libaneses. "O problema é Israel", insistiu.

Se a moda pega, a culinária vai ter de recorrer a neologismos. Digamos que o Líbano patenteasse o falafel. Israel – ou qualquer outro país - estariam proibidos de comercializá-lo? Ou poderiam talvez produzir e vender falaféis, apenas trocando de nome? Felafal, quem sabe? Ora, a cozinha deveria ser um momento de paz entre os povos. Abboud quer guerra.

Esta guerrilha já ocorreu no Brasil. Em 2001, algumas baianas decretaram a guerra do acarajé, aquele bolo de feijão-fradinho recheado e temperado, que costuma ser vendido pelas assim chamadas filhas de Iansã, mulher de Xangô, o deus do raio e do fogo. As vendedoras vestem saias brancas rodadas e blusas de rendas como as mães-de-santo. Suas barracas seriam montadas em lugares escolhidos, depois de consulta às divindades. Ocorreu que os evangelistas andaram invadindo a seara dos deuses afros. E crentes de cabelos soltos - o que é herético para as filhas de Iansã - passaram a vender o “acarajé de Jesus”. Convertidas a religiões evangélicas, as novas vendedoras se recusam a usar o vestuário tradicional completo, associado às mães-de-santo, especialmente os turbantes e adereços que simbolizam orixás ou divindades.

As baianas ligadas ao candomblé se ergueram em santo e irado protesto. "Que os evangélicos vendam cachorro-quente ou milho, mas não acarajé - diz um estivador pai-de-santo -. Se consideram comida do demônio, por que estão tão ansiosos por vender acarajé?" Para defenderem seu faturamento, as vendedoras persuadiram uma vereadora a apresentar projeto de lei que proibia o preparo ou venda de acarajé por qualquer "estabelecimento comercial", incluindo shoppings, restaurantes e bares. No que deu, não sei. Suponho que em nada, pois os jornais não voltaram ao assunto.

Só o que faltava culinária ser monopólio de uma raça, país ou grupo religioso. Que os fundamentalismos se afastem da cozinha. Que permaneçam nos templos, onde vicejam. Você já imaginou se os judeus inventassem de cobrar direitos autorais sobre a Torá? Iria sobrar tanto para cristãos como para muçulmanos, tanto para seguidores do Papa como do Edir Macedo.