¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, outubro 13, 2008
 
DESESPERO PETISTA VIRA
CONVERSA DE LAVADEIRAS



Pelo jeito, o desespero acampou nas hostes petistas paulistanas. Em comerciais na TV, o locutor pergunta sobre Kassab: "Sabe se ele é casado? Tem filhos?" A insinuação não poderia ser mais direta. Corre à boca pequena em São Paulo que Kassab é homossexual. Se é, exerce um direito de todo cidadão e ninguém tem nada a ver com sua opção. Tanto Berlim como Paris tiveram prefeitos homossexuais, e isso nada tem a ver com capacidade administrativa. Aliás, minha aldeia lá da Fronteira Oeste, Dom Pedrito, foi pioneira neste sentido. Ainda nos anos 70, teve um prefeito homossexual, o folclórico Rui Bastide, que era muito estimado pelos pedritenses.

Desespero é fogo. Quando o partido da sexóloga que defende o casamento homossexual faz publicamente tais insinuações, o debate se nivela a conversa de lavadeiras, se é que lavadeiras ainda existem.

Em 2003, Marta Suplicy vivia a condição de bígama. Era amante do argentino Luís Favre, mas ai do jornalista que ousasse escrever a malsinada palavrinha. Era acusado de invadir a privacidade de Dona Marta e seus dois maridos. Favre era namorado. Já o ACM tinha amantes. Ai do jornalista que ousasse escrever que ACM tinha namorada. A questão provocou a indignação de Barbara Gancia, da Folha de São Paulo, que se espantava com "a desenvoltura da mídia e dos envolvidos no caso dos grampos telefônicos na Bahia em tratar a senhora Adriana Barreto como ex-namorada de ACM. "Vem cá: o senador não é um homem casado? Então que história é essa de "ex-namorada"? Até prova em contrário, Adriana foi ou voltará a ser (se depender da vontade dos pais) a amante de ACM".

Zélia Cardoso de Mello, por exemplo, era a amante de Bernardo Cabral. Suzana Alves, a amante de PC Farias. Fernandinho Beira-Mar também tinha amantes. Mas Dona Marta era de esquerda, era do bem. Logo, namoradinha do compadrito argentino. Mônica Bergamo, cronista de futilidades da Folha de São Paulo, ia mais longe. Sem que Marta e Favre tivessem casado, a colunista falava em “Marta Suplicy e seu marido, Luis Favre".

Roberto Pompeu Toledo, colunista de Veja, aproveitou o ensejo e fez ironias dizendo que ficou feio falar em amante. "A palavra invoca trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só não é mais brega que "amásia". Então, usa-se "namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto, a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa. Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada? Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos. Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia".

O que o colunista parece ter esquecido é que bigamia também é poligamia. Ora, não vivemos numa sociedade islâmica teocrática – para usar seu paralelo –, e ter amantes faz parte do cotidiano. Verdade que a palavrinha envelheceu, ou mesmo assumiu uma conotação pejorativa, talvez politicamente incorreta. Mas a poligamia está liberada, sim senhor. Só não pode ser reconhecida legalmente. Adultério já não é considerado crime.

O PT se indignava quando alguém falava em adultério a respeito de Marta. Mas se reserva o direito de insinuar a suposta homossexualidade de Kassab. Marta, que já criticou a exploração de sua vida pessoal, por ocasião da affaire Favre, faz vistas grossas quando a campanha de seu partido joga na televisão insinuações sobre a vida privada de seu adversário.

O desespero petista está se traduzindo em conversa de lavadeiras.