¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, outubro 03, 2008
 
DESONESTIDADE EDITORIAL


Em julho passado, subi a costa da Noruega navegando pela Hurtigruten – Expresso Costeiro, em bom português. É certamente a mais linda das viagens do mundo. Os navios navegam entre arquipélagos, entram em fjordes montanhosos e atracam em vários portos. Ao final do percurso, você conheceu quase todo o país, pois as cidades da Noruega se situam geralmente no litoral. Já falei do assunto, em agosto passado.

Bom, viajei com uma jornalista. Ao voltar, ela propôs uma pauta a vários jornais e revistas de São Paulo. Particularmente sobre a Hurtigruten, que é praticamente desconhecida no Brasil. Pauta das boas, mas não foi aceita. Houve quem alegasse que brasileiro não se interessa pela Noruega, então a pauta não interessa. Melhor continuar repetindo ad nauseam Londres, Paris, Roma, Madri. Não que sejam cidades desinteressantes. Mas há matérias demais – e redundantes – sobre esses destinos. A Folha de São Paulo alegou que não aceitava colaborações.

Algumas semanas depois, chupou a pauta da moça. Deu primeira página à Noruega, no suplemento de turismo de ontem. Até aí, tudo bem. Um editor pode recusar ou aceitar a colaboração de qualquer profissional. O que não pode é mentir. Dizer que o jornal não aceita colaboração e publicar logo após uma colaboração. A partir de pauta alheia.

Conheço isso. Lá pelos anos 70, fiz uma longa entrevista com Ernesto Sábato. Enviei-a para a maior revista do país, pensando em publicação nas Páginas Amarelas. Não recebi nem resposta. Semana seguinte, a revista enviou um foca a Santos Lugares para entrevistar Sábato. E publicou sua entrevista, feita por alguém que obviamente jamais lera um livro de Sábato.

Ou seja, jornalismo no Brasil ainda se faz na base do compadrismo. Não interessa a qualidade do trabalho. O que interessa é a relação que um editor tem com um apadrinhado. Até aí, nada demais. As empresas privadas do país têm os mesmos vícios das públicas, e esta é que é a vida nacional, como dizia uma canção dos anos 70.

O problema reside em outro lugar. Sempre dou uma olhadela nos suplementos de turismo, mas olhadela inútil. É jornalismo vendido. Empresas de turismo ou de transporte oferecem viagens a jornalistas, para que vendam seus peixes. Por peixes, entenda-se turismo de massa. O jornalista, cooptado, se sente constrangido a vender peixes podres. Confesso nunca ter visto propostas inteligentes de viagem nos suplementos turísticos da imprensa nossa. É uma pena, porque viajar inteligentemente é muito bom.

O “repórter” da Folha, ao que tudo indica, sequer fez a viagem que relata. Se a fizesse, não escreveria esta besteira:

Repleto de fiordes, baías, enseadas e rochedos, o litoral norueguês tem 25.148 km de extensão. E esses navios, usados como transporte regular, percorrem essa costa do sul (partem de Bergen) ao norte (vão até Kirkenes). A viagem de ida e volta dura 11 dias e custa US$ 1.435,50 por pessoa, em cabine dupla, com pensão completa.

Ora, se os navios são usados como transporte regular – como de fato o são – o repórter deixa de informar o melhor da viagem. Fala de uma ida e volta de onze dias, com pensão completa. Não está informando errado. Mas está omitindo dados importantes. Sendo um expresso costeiro, a Hurtigruten permite aos passageiros fazer a viagem que bem entenderem. Se você quer navegar um dia, dois, três ou cinco – ou mesmo os onze – sinta-se à vontade. Você pode descer em um porto, ficar lá pelos dias que quiser e tomar outro navio mais tarde. Pode descer do navio, pegar um ônibus para ver os fjordes do alto, e retomar o navio no porto seguinte. A Hurtigruten não é, em princípio, um cruzeiro. É uma linha de transporte.

Ocorre que a agência brasileira que açambarcou as reservas na Hurtigruten só vende o trajeto completo, de Bergen a Kirkenes. Se eu quiser descer em Ålesund ou Tromsø, nada feito. Isto é, até pode ser. Mas tenho de pagar o trajeto até Kirkenes. Para comprar uma viagem nos moldes em que a Hurtigruten propõe, só em Paris, Madri ou alguma outra cidade européia. A agência brasileira que monopoliza o expresso norueguês – a Abreu Turismo – ainda não entendeu que o socialismo morreu e que cada cliente tem direito a escolher a mercadoria que quiser.

Sem falar na armadilha da pensão completa. De repente, você entra em um fjord magnífico... e está preso no salão de almoço. Faltou informar que o restaurante é caríssimo e que você pode muito bem comer nos cafés do navio, a preços bem mais humanos. E na hora que bem entender.

Todos os jornais nacionais oferecem péssimos suplementos de turismo. Mas a Folha – além de chupar pauta alheia – exagerou na desinformação.