¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, outubro 13, 2008
 
ENTRE AS FARC E O BOM JEOVÁ,
INGRID PREFERE QUEM MATA MAIS



Ingrid Betancourt, a deputada seqüestrada pelas FARC durante seis anos e resgatada pelo Exército colombiano em julho passado, tem algo em comum comigo, o gosto pelo cochinillo. Teve como companheiro de desgraça durante quatro anos Luis Eladio Pérez, político colombiano que, durante o cativeiro, lhe falava de um restaurante madrilenho, El Sobrino de Botín, onde serviam um cochinillo assado excelente, que ele descrevia com muitos detalhes até que Ingrid, com o estômago inundado por sucos gástricos, lhe pedia que por favor se calasse. É o que leio no El País deste domingo. Paraíso é isso mesmo. Uma vez lá, jamais esquecemos dele. Mas não era disto que pretendia falar.

Está ocorrendo um fenômeno curioso no mundo da mídia. Qualquer vítima se sente, ipso facto, herói. Por ter permanecido seis anos como refém do narcotráfico, Betancourt se sentiu logo merecedora do prêmio Nobel da Paz. Na véspera da premiação, uma sala já havia sido alugada em um luxuoso hotel de Paris, para uma entrevista coletiva com a seqüestrada. Um comitê denominado “Agir avec Ingrid” chegou a preparar um comunicado sobre o significado do troféu a ser conferido à deputada. Santa ilusão. Deu Martti Ahtisaari, ex-presidente da Finlândia, discreto mediador de conflitos no mundo todo, que incluem o processo de independência da Namíbia, o conflito armado de Aceh, na Indonésia, mais conflitos no Iraque, na Irlanda do Norte, na antiga Iugoslávia, na Ásia Central e no Chifre da África.

Mas que teria feito Ingrid merecer o Nobel da Paz? Permaneceu seis anos como prisioneira de terroristas. Ora, que mérito tem isso? Muitos outros permaneceram esse período prisioneiros das FARC – e outros ainda permanecem – e nem por isso se julgam merecedores do Nobel. Ocorre que Ingrid teve convivência com velhos comunossauros como Pablo Neruda e Gabriel Márquez, sem falar que após sua libertação andou tendo colóquios com sumidades como Bento XVI, Nicolas Sarkozy e outros ícones da mídia contemporânea. Logo se sentiu candidata natural ao Nobel. Seja como for, em 23 de setembro passado, mereceu seu cochinillo no Sobrino de Botín, quando esteve em Madri para o lançamento de Inferno Verde, o livro de Luis Eladio. Cá entre nós, muito melhor que uma cerimônia chata de Nobel. Mas tampouco era disto que pretendia falar. E sim de algo mais surpreendente. Em seus dias como refém, Ingrid teve consigo uma Bíblia, que teria mudado sua vida.

“A Bíblia é um instrumento extraordinário” – diz a ex-refém - . “É preciso ler a Bíblia com tranqüilidade, sem orelhas que te condicionem a lê-la por cima, sem entender o retrato humano da relação de Deus com o homem. É muito difícil explicar, mas o que quero dizer é que entendi, lendo a Bíblia, que Deus não é energia, nem luz nem partículas de gás no cosmos, mas que Deus é um ser humano, em outras palavras, que o o que nós temos de humanos é o que temos de Deus e, portanto, que sua relação conosco é uma relação de palavras, e creio que isso é fundamental: entender que somos seres de palavras. Então, através da Bíblia chega a palavra de Deus com uma riqueza infinita de códigos humanos e com retratos psicológicos impressionantes, como os de Abraão”.

Vamos começar com Abrão, que assim se chamava Abraão no início dos tempos. De fato, é um retrato psicológico impressionante. Quando no Egito, prostituiu sua mulher, Sara, para receber benesses de Faraó.

“Ora, bem sei que és mulher formosa à vista – diz Abrão no Gênesis – e acontecerá que, quando os egípcios te virem, dirão: Esta é mulher dele. E me matarão a mim, mas a ti te guardarão em vida. Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma em atenção a ti. E aconteceu que, entrando Abrão no Egito, viram os egípcios que a mulher era mui formosa. Até os príncipes de Faraó a viram e gabaram-na diante dele; e foi levada a mulher para a casa de Faraó. E ele tratou bem a Abrão por causa dela; e este veio a ter ovelhas, bois e jumentos, servos e servas, jumentas e camelos”.

Até Faraó se ofendeu com tanta caftinagem.

“Então chamou Faraó a Abrão, e disse: Que é isto que me fizeste? por que não me disseste que ela era tua mulher? Por que disseste: É minha irmã? - de maneira que a tomei para ser minha mulher. Agora, pois, eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te. E Faraó deu ordens aos seus guardas a respeito dele, os quais o despediram a ele, e a sua mulher, e a tudo o que tinha”.

Impressionante o retrato psicológico do patriarca. Mas isto é o de menos. Nos últimos dez anos, as FARC teriam cometido mais de seis mil assassinatos. Ora, isto é fichinha para o bom Deus de Ingrid. Só para começar, já no Gênesis, Jeová extermina todo o gênero humano. Por quê? Porque os filhos dos deuses haviam descoberto que as filhas dos homens eram belas e com elas se cruzaram. Só porque os filhos dos deuses admiravam a beleza, Jeová destrói o gênero humano, exceto Noé e os seus.

Imbuído por Jeová, outro renomado patriarca, Moisés, mata três mil judeus a fio de espada. Jamais as FARC conseguiram tal feito. Elias, por culto a Jeová degola 450 sacerdotes de Baal. Jamais as FARC degolaram tantos de uma vez só. Só porque os sodomitas eram chegados a uma sexualidade menos ortodoxa, Jeová arrasa a ferro e fogo Sodoma. Poupa Lot, o único homem justo de Sodoma. Logo aquele que dormirá mais tarde com suas duas filhas. Que saibamos, jamais as FARC arrasaram uma cidade. Eliseu sobe a Betel, quando alguns meninos saíram da cidade e começaram a gritar: “sobe, careca; sobe, careca”. O santo homem amaldiçoou-os em nome do Senhor. Duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos. Não temos notícia nenhuma de que algum dia as FARC tenham matado tantas crianças.

O sábio rei Davi carrega a morte de 70 mil israelitas. Davi faz um censo de seu povo, o que provoca a ira de Jeová. Como castigo, pode escolher entre três opções: “ou três anos de fome; ou seres por três meses consumido diante de teus adversários, enquanto a espada de teus inimigos te alcance; ou que por três dias a espada do Senhor, isto é, a peste na terra, e o anjo do Senhor façam destruição por todos os termos de Israel". O sábio rei Davi não tem dúvidas, escolhe os três dias de peste. "Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel; e caíram de Israel setenta mil homens". Jamais as FARC mataram tanto.

As FARC não conseguiram matar além dos quatro dígitos. Ingrid Betancourt deve considerá-los uns incompetentes. E passou a cultuar quem mata mais e com mais eficácia.