¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, outubro 14, 2008
 
MONOTEÍSTAS E FANÁTICOS


Ainda há pouco, em algum país árabe, já não lembro qual, um muçulmano foi preso por não observar o jejum no Ramadã. Ou seja, religião é obrigação compulsória. A qualquer descumprimento do dogma, prisão. As autoridades até que estão sendo lenientes. Ano passado, no Paquistão, um projeto de lei que tramitava em primeira instância na Assembléia Nacional, previa prisão e pena de morte para muçulmanos, homens ou mulheres, no caso de abandono da fé islâmica. Os condenados também seriam obrigados a deixar suas propriedades e entregar a custódia legal de seus filhos.

O Paquistão está em atraso com os costumes vigentes no universo muçulmano. Segundo a Anistia Internacional, nos países islâmicos onde foi introduzida a Sharia, adultério, abandono do islã e conversão para outras religiões, blasfêmia contra a religião e seu profeta Maomé, são motivos para alguém ser condenado à morte por apedrejamento, decapitação ou enforcamento.

Fanáticos, direis. Certo. Mas o fanatismo não é exclusividade do mundo islâmico. Em Acre, Israel, a polícia prendeu Taufik Jamal, cidadão árabe-israelita, que dirigia seu carro na segunda-feira à noite, por “ferir sensibilidades religiosas”. Era Yom Kipur, a mais sagrada festividade judaica, durante a qual os judeus dedicam 25 horas ao jejum e à oração. É o que nos conta El País.

Ocorre que Jamal era muçulmano. Não importa. Deve observar as práticas de uma religião que não a sua. Era perto de meia-noite, o Yom Kipur havia começado. Jamal foi com seu carro até um bairro judeu de Acre, para apanhar sua filha na casa de seu noivo. Grupos de crentes judeus apedrejaram Jamal e o perseguiram pela cidade. Os palestinos residentes na localidade souberam da coisa e instalou-se o conflito na mesma noite.

Segundo o jornal espanhol, isto ocorre todos os anos. Os extremistas judeus apedrejam até mesmo as ambulâncias. Os choferes de David Magem Adom (o equivalente à Cruz Vermelha, quando trabalham, são aconselhados a usar coletes e capacetes à prova de balas.

Em Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, leio que nesses bairros é apedrejado até mesmo quem ousar acender um cigarro durante o shabat. Pois não se pode fazer fogo nessas datas. O curioso é que não encontramos nada na Bíblia que prescreva o jejum durante Yom Kipur. É criação rabínica. A lei de Moisés tem múltiplas prescrições a serem observadas no Dia das Expiações, mas nenhuma delas prescreve o jejum.

Ou seja, em matéria de fanatismo, os judeus nada ficam a dever aos árabes. Neste sentido, os árabes são inclusive mais tolerantes. Durante o Ramadã, mês sagrado do Islã, os judeus bebem álcool e comem nas ruas durante as horas em que os crentes de Maomé jejuam. “Isso também nos ofende, mas nós não criamos confusão” – diz um habitante de Acre. A polícia israelita, por sua vez, não detém ninguém por ferir alguma sensibilidade.

Me ocorre episódio que me foi contado por uma amiga pianista. Ela dava aulas de canto para um rabino. Em certo momento, bateu-lhe três vezes no ombro para marcar o compasso: um, dois, três. O bom rabino se escandalizou. Não podia ser tocado por mulher. A mulher pode estar impura, isto é, menstruada. Mas este gesto foi o de menos. O rabino era diabético. Certo dia, teve uma crise de hipoglicemia durante a aula. Minha amiga correu a trazer-lhe açúcar, o que se recomenda nessas ocasiões. O rabino recusou. Só consumia açúcar kasher, o açúcar benzido por outro rabino. O fanático arriscou a vida – ou pelo menos a ficar aleijado – apenas em função de uma prescrição rabínica. Porque isso de açúcar kasher tampouco está no Livro. Aliás, açúcar é coisa que não existe na Bíblia.

Vivo em Higienópolis, bairro profundamente judeu. Neste último Yom Kipur, as ruas foram tomadas por senhores e senhoras elegantes, bem vestidos, mas todos usando tênis. Porque no Yom Kipur judeus não podem usar calçados de couro. Nem ter relacionamento conjugal, nem passar cremes ou desodorantes no corpo, nem banhar-se por prazer.

Uma colega de jornalismo, ainda dos tempos da Folha de São Paulo, que vive no bairro, aproveita esta ortodoxia para divertir-se, espalhando terrorismo intelectual. Adora provocar um esbarrão com um rabino. E se desculpa: “Perdão, não o vi. É que estou menstruadíssima”. Os rabinos se apavoram e tentam limpar o corpo, batendo desesperadamente com as mãos nos braços. Como se isso adiantasse. Afinal, diz o Levítico: “todo aquele em quem tocar o que tiver o fluxo, sem haver antes lavado as mãos em água, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde”.

Minha colega se diverte, tornando imundos os transeuntes do bairro por pelo menos uma tarde, com um simples esbarrão. Estamos em São Paulo, bem entendido. Em Acre, ela seria talvez lapidada.