¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, outubro 06, 2008
 
PAULISTANOS E PANACAS


Chefs, eis o novo ícone do noveaurichisme paulistano. Verdade que muitos são migrantes, em geral nordestinos, que um dia foram auxiliares de cozinha nalguma capital européia e voltaram com o pomposo título. Afinal, chef é galão que se ganha no Exterior, preferentemente na França. Chefs franceses e espanhóis, cientes destas vaidades da Paulicéia, acabaram descobrindo o Brasil.

Abriu hoje um leilão, a um valor mínimo de R$ 5.000, de ingressos para o assim chamado jantar do século, que reunirá a elite da gastronomia espanhola em São Paulo, no Hyatt, no próximo dia 3. Estima-se que os lances mais altos para arrematar um dos 80 lugares disponíveis para o jantar de Ferran Adrià, Juan Mari Arzak, Andoni Aduriz, Martín Berasategui e companhia ultrapassem a casa dos R$ 10 mil.

O evento é pretencioso. 2.000 recém iniciou e o jantar já se pretende o jantar do século. É beneficente, é verdade. Os tais de chefs não cobrarão nada por seus serviços, mas serão os reais beneficiados. O que ganharão em publicidade certamente vale bem mais que os 500 mil reais que os organizadores da coisa pretendem arrecadar. “Nenhum chef está cobrando cachê para vir", diz Mariella Lazaretti, uma das organizadoras do regabofe. Pode ser. Mas duvido que paguem passagem, hospedagem e estada do próprio bolso.

Ora, dez mil reais são 3.700 euros. Nenhum francês ou espanhol pagaria uma fortuna dessas por um jantar. Você come excepcionalmente bem por 70 ou 80 euros nos restaurantes de Paris ou Madri. Poderá comer algo mais sofisticado, pelo dobro do preço. Se quiser, pode até comer por 3.700 euros. O diferencial está no vinho. Se você se dispõe a pagar 3.000 euros por um vinho, encontra vinho por esse preço. Mas não é preço que gue pessoa sensata pague.

Pelo preço estimado do famigerado jantar, você paga uma passagem de ida-e-volta a Paris (uns mil dólares ou talvez menos) e sobram uns 3.000 euros para a festa. O que significaria pelo menos umas vinte ou trinta refeições excelentes, nos melhores restaurantes au bord'elle, la Seine.

É preciso ser paulistano – e panaca – para cair no conto do jantar do século.