¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, outubro 10, 2008
 
ROMANCES, NÃO MAIS


"É preciso continuar a ler romances, porque são uma boa forma de continuar a interrogar o mundo atual de uma maneira não muito tecnicista. Romances são a minha forma de interrogar. Digo isso porque um escritor não é um filósofo” – declarou o novel Nobel, Jean-Marie Gustave Le Clézio.

Há uns trinta anos, eu teria concordado com Le Clézio e assinado embaixo. Hoje, não mais. A última ficção que li foi a última que traduzi. No caso, A Família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, em 1986. Se assim foi, encerrei meu ciclo de leitura de ficções com uma novela soberba. Ou seja, faz 22 anos que não ponho os olhos nesses contos de fadas para adultos, como dizia Nabokov.

O ficcionista tem algo de petista. Cria argumentos imaginários para melhor rebatê-los. Não é difícil, a uma pessoa dotada de imaginação, criar universos fictícios para defender qualquer tese, por mais absurda que seja. Os cultores do zdanovismo – ou realismo socialista, como é mais conhecido – levaram esta possibilidade às últimas conseqüências. Mas mesmo escritores que jamais poderiam ser acusados de zdanovismo, em maior ou menor grau, abusaram desta possibilidade. Pego, ao acaso, um clássico do século passado, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Neste romance, em um asilo para tuberculosos, em Davos, se confrontam Settembrini - defensor das idéias da revolução de 1789 e do racionalismo liberal e individualista do século XIX – e Naphta, advogado da parte instintiva e primitiva do homem, que tende à idiossincrasia comunista. Tudo isto sob o olhar atento de Hans Castorp, que fora visitar um primo tísico no asilo.

Ora, é evidente que Mann juntou Settembrini a Naphta - dois personagens inviáveis - para discutir sua perplexidade ante o regime que começava a dominar o século. Melhor teria feito se escrevesse um ensaio, denunciando a nova tirania. Por mais que Settembrini e Naphta empunhem argumentos, nenhum deles dá a idéia do que foi o comunismo. O romance de Mann foi publicado em 1924, quando Lênin já havia ordenado fuzilar sumariamente o tzar e sua família. Panaïti Istrati, cinco anos depois, equaciona melhor a questão no ensaio Vers l’autre flamme. Uma coisa é a história vista como ficção. Outra, como realidade nua e crua.

Em minha tese sobre a obra de Ernesto Sábato, sustentada na Université de la Sorbonne Nouvelle, defendi com entusiasmo a ficção, a busca de um outro caminho, quando o escritor põe no mundo personagens que parecem ser de carne e osso, "mas que pertencem ao universo dos fantasmas. Entes que realizam por nós, e de certa forma em nós, destinos que a própria vida nos vedou", como diz Sábato. O romance é então uma forma de fugir à imanência, "forma quase tão precária como o sonho, mas pelo menos mais voluntariosa". Para o escritor de Santos Lugares, nisto reside uma das raízes metafísicas da ficção. A outra seria "essa ânsia de eternidade que tem a criatura humana, outra ânsia incompatível com sua finitude. A busca do tempo perdido, o resgate de alguma infância ou alguma paixão, a petrificação de um êxtase".

Pode ser. Minha tese, eu a defendi em 81. De lá para cá, mudou minha visão destas fugas à imanência. Tendo escrito dois romances, Ponche Verde e Laputa, concluí que o escritor perde muito tempo criando climas e personagens, quando poderia ser mais conciso e direto no que se propõe. Um dicionário francês definiu o gênero como "história fingida, escrita em prosa". Ora, o real tem se mostrado muito mais surpreendente do que a ficção. Algum ficcionista imaginou que um dia o Muro de Berlim seria derrubado? Que o mundo soviético desmoronaria? Não.

Então fico com Fernando Pessoa. "A mesquinhez, a estreiteza imaginativa são os vícios definidores da nossa época. Somos incapazes de escrever, ou de querer escrever, ou de saber ler sem escrever, epopéias. Em compensação, escrevemos romances. O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação" - escreveu Pessoa -. "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida".

Minha ficção predileta, hoje, é a ficção teológica. Esta é pra valer. Impõe dogmas, comportamentos, visões de mundo. Lendo literatura, consigo entender o universo dos ficcionistas, mas não necessariamente o mundo. Lendo teologia, entendo o Ocidente. Quando um teólogo elabora uma ficção, cuidado. Ou você acredita na ficção, ou vai para a fogueira. Fascinante, o poder da ficção teológica.

Fora isto, meu romance cotidiano são os jornais. Na imprensa, os dramas se desenvolvem dia a dia e os desfechos são quase sempre inesperados. Quem imaginaria um pai e uma mãe jogando uma filha pela janela? Ou pais esquartejando filhos? Nem Dostoievski. Verdade que Swift escreveu sua Modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República. Mas se tratava de ironia. Era ensaio, não ficção.

Ano passado, confessei que substitui minha leitura de romances pela leitura dos jornais. O que não é muito diferente. Nos jornais, acompanho ao mesmo tempo vários enredos. Em priscas eras, acompanhei a guerra do Vietnã, as façanhas de Pol Pot no Camboja, as matanças de Mao Tse Tung na China - em proporções que nenhum escritor jamais ousaria imaginar. Acompanhei a Guerra dos Seis Dias, a "revolução" iraniana, os desastres de Khomeiny em Teerã, a primeira e a segunda guerras do Golfo, a queda do Muro, a balcanização da antiga Iugoslávia, o fim da URSS, as aventuras de Clinton no Salão Oval. Os romances são muitos na leitura diária dos jornais e satisfazem a todos os paladares.

Le Clézio que me desculpe. Romances, não mais. Topo até reler algum clássico. Mas os ficcionistas contemporâneos me dão a sensação de estar ouvindo as conversas de meu boteco. Houve época em que fui atento aos prêmios Nobéis de Literatura. Tive inclusive meus candidatos. Ultimamente, nem ligo. Um Nobel, hoje, me comove tanto quanto um jogo de futebol. Ou seja, nada.