¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, dezembro 02, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (III)


Continuo a discorrer sobre os ganhos. Cheguei no tempo das avós, dizia. Lindas, exuberantes, na plenitude de seus sessenta. Sexappealgenárias. Nos dias de meus antepassados, aos quarenta uma mulher já era um caco. Hoje, não mais. Com um surplus. Aos sessenta, uma mulher imagina que está dando a última. E capricha mais do que qualquer jovenzinha.

Sempre graças à Internet, os reencontros foram se multiplicando. Acho que já contei. Ainda este ano, retomei contato com uma namorada de Porto Alegre que não via... há 28 anos. Vem me ver, convidei. E levei-a para Paris, Bruxelas, Barcelona e Madri. Foram dias de muita folgança com a vovó, em todos os sentidos. Curtimos meus restaurantes prediletos naquelas cidades, fui a Bruxelas por só uma noite, só para apresentar-lhe o Metropole, o restaurante que considero talvez o mais lindo da Europa. Muito vinho, muito foie gras, cochinillos y lechales e mais o que vem depois.

Há uns bons dez ou mais anos, eu tivera um reencontro dramático com ela. Fui até aquele bar na casa Mário Quintana, em Porto Alegre. Havia apenas três pessoas no recinto. Eu, ela e mais alguém que não reconheci. Aconteceu então o pior que pode acontecer a um mortal. Lembrava dela, de seus olhos, de seu sorriso cativante, de nossos enlevos. Me deu um branco: não lembrava de seu nome. Não posso abordar essa moça que tanto quis – pensei – e confessar que não lembro como se chama.

Aproximei-me da mesa dela. Vai ver que ela me reconhece e me chama. Mas meus cabelos já não eram negros como as asas da graúna, aliás já nem eram muitos. Uma calva fazia uma ravina em minha cabeça, na testa só restavam alguns fios, que chamo de resistência organizada. Minha barba, antes azeviche, fora branqueada pelas geadas das décadas. Me detive alguns segundos ante a mesa. Ela me olhou com certa curiosidade, mas não me reconheceu. Saí do bar com um sentimento de profunda desolação. Ela não lembrava mais de mim. Eu poderia ter dito: “não lembro teu nome”. Mas tive vergonha. Tudo bem. Em maio passado, fomos à desforra.

Vai daí que, ao voltar da Europa, sempre graças à Internet, reencontro outra amiga, também de Porto Alegre, que também não via... há 28 anos. Vem me ver, convidei. Festa de novo. Ela vive hoje em Salvador. Eu, que tenho ojeriza à Bahia, mais dia menos dia irei para lá. Tivemos intensa correspondência quando vivi em Paris. Em uma de suas cartas – era na época das cartas – me escreveu: “quando estás por perto, sinto menos medo”. É frase que jamais esqueci. É bom saber que uma pessoa não sente medo quando estamos por perto.

Quando julguei que não encontraria pessoa mais longe no tempo, sempre graças à providencial Internet, recebo mail de uma moça de Dom Pedrito. Não cheguei a conhecê-la. Quando fui expulso da cidade, teria uns dezessete anos. Ela tinha nove anos a menos. Mas tinha notícias de mim. Pelo sobrenome, logo a identifiquei. Só podia ser irmã de uma filha de Maria, que eu paquerava quando era presidente da Congregação Mariana. Pasma, leitor: fui presidente de Congregação Mariana. Até hoje tenho aquela fita azul de congregado. Não a fininha, de candidato a congregado. Mas a larga, de congregado mesmo. Confissões e missas todo final de semana. Mais a novena dos cinco sábados e a das nove sextas-feiras. Que me garantem a redenção no momento final. Por mais que eu peque, no último de meus dias estarei salvo. Seguro morreu de velho.

A menina que me escreveu, não cheguei a conhecê-la. Nos conheceremos em breve. Através dela, cheguei à sua irmã, que não via ... há 45 anos. E que vivia, sem que eu soubesse, um pouco em Paris, um pouco no Rio. Passamos a conversar e tem sido muito bom reviver aquela época de adolescência.

Não sei se meus contemporâneos ainda lembram, mas naqueles dias em que não havia televisão, o lazer das cidades do interior gaúcho era o footing na praça. Formavam-se duas correntes de pessoas, girando em sentido contrário. Sei lá porquê, me ocorreu um palíndromo romano: in girum imus nocte et consumimur igni. Se o leitor jovem não sabe o que é palíndromo, basta ler a frase de trás para a frente e entenderá. Traduzindo: giramos pela noite e nos consumimos no fogo. No fogo daqueles olhares ardentes, que se repetiam a cada volta da praça, quando os deambulantes cruzavam de novo uns pelos outros. Como o ritmo da caminhada era sempre o mesmo, o reencontro era sempre previsível. Um pouco antes de rever aqueles olhos, já sabíamos que eles estavam próximos. Todos mantinham uma certa ordem no passeio. Depois de alguns rostos familiares que se repetiam, sabíamos que logo adiante estava o rosto luminoso que queríamos rever.

Eram dias de colégios separados, mulheres em um, rapazes em outro. Éramos espécimes que não nos conhecíamos uns aos outros. Para nós, varões, havia um desafio: “se tens coragem, vai falar com ela”. Certa noite, muni-me de minha escassa coragem e a abordei. Desastre total. Dita a primeira palavra, não encontrei mais assunto. Nem ela. Giramos na noite pela praça, mudos, consumidos pelo fogo, sem dizer sequer uma palavra um ao outro. Terá sido, certamente, a última vez que a encontrei. Hoje, senhores da palavra, retomamos aquele diálogo mudo, que devia ter existido, mas não existiu. Koelet esqueceu de escrever, mas a época das vovós é ótima.

Bueno, quando não esperava encontrar alguém mais longe no tempo, recebo recado de uma terna priminha, a Renée. “Lembras quando cavalgávamos no perau do tio Ângelo?”. Nossa, já lá vai mais de meio século. Mas antes de falar do perau, preciso situar tio Ângelo em sua época e circunstância.