¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, dezembro 09, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (VIII)


Tempos rudes, aqueles, tempos que não voltam mais. Meu clã andava sempre armado e muitos tinham um mosquete Mauser de seis tiros e uma Winchester 44 (pente de 12 balas, mais uma no cano), geralmente enroladas em lençóis e escondidas nalgum baú. Minha parentada nasceu no início do século. Na Revolução de 23, estavam todos em idade de guerrear e não seria de duvidar que entre meus tios alguns tenham atado a gravata colorada no pescoço de algum chimango. Como isto é assunto que não se fala na frente de crianças, nunca fiquei sabendo se tive entre os meus algum degolador. Era muito comum, em meus dias de guri, encontrarmos centenas de cápsulas e mesmo balas de mosquetão nos barrancos do Ponche Verde.

Há uma expressão lá naqueles pagos, "não se gasta chumbo em chimango". Ora, chimango é um rapace. Mas quando se usava esta expressão, o significado era outro. Referia-se aos chimangos, partidários de Borges de Medeiros, por oposição aos maragatos, aliados de Assis Brasil. Para os chimangos, a gravata colorada.

E por que Ponche Verde? Era o poncho preferido da indiada. Confundia-se com o verde da pampa, com os alhos-bravos e flexilhas. Ou seja, servia como camuflagem. Tornava a guerrilha invisível. Canário, meu pai, tinha um. Certa vez lhe foi roubado numa viagem a Livramento. Moveu mundos e fundos, investigou junto à vizinhança, mobilizou a Polícia Rural Montada e finalmente o teve de volta. “Não é pelo valor” – dizia – “mas pelo desaforo”. Mas tampouco era pelo desaforo. Era como se lhe houvessem roubado a alma.

De tempos em tempos, a Moreirada azeitava as armas e íamos praticar “tiro ao blanco”, às vezes num umbu frente à Casa, às vezes mais adiante, no perau. A piazada também participava dos exercícios. Nesses dias, nós, criançolas, tínhamos direito a sair a caçar armados. E saímos, campo afora, com uma agradável sensação de adultez, a matar lebres, preás e perdizes... com armas de guerra. Olhando de hoje aqueles pagos, não tenho dúvida que vivia em um provisório acampamento de guerra, pronto a levantar-se em armas ao menor grito de um caudilho.

Entre homens sempre armados, qualquer palavra impensada é um risco de vida. Assim morreu Ivo, o que matara seu sogro na Linha Divisória. Numa manhã de domingo, chegou a um bolicho, creio que do lado do Brasil. O bolicheiro, que carneava uma vaca, pediu-lhe para dar uma mão. “Me ajudas a coreá esta vaca, Ivo?” Meu primo foi descuidado com a própria vida: “Se não for roubada, te ajudo”. Morreu ali mesmo, de um balaço. São perigosas, as palavras.

Meus avôs paternos, pelos mapas que tenho comigo, eram grandes proprietários. Morreram com a gripe espanhola, em 1918, deixando um rebanho enorme de crianças sem experiência alguma da vida. Metade da propriedade foi tomada pelos picapleitos do “povoado”. A outra metade, que permaneceu indivisa, foi aos poucos mermando e, daquele meu clã todo, hoje só devem resistir um ou dois nos campos. De um lado, os estancieiros vizinhos iam comprando os campos, de braça em braça, ora para expandir as plantações de trigo ou a criação de gado, ora para ter um corredor seguro de contrabando para a Banda Oriental.

De outro lado, todos sabiam que não havia futuro no campo. O futuro estava na cidade: saúde, educação, trabalho decente. Minha geração toda migrou. Os primeiros a abandonarem o campo foram o tio Favorino e a tia Enilda, pais da René, a prima que agora me evoca aqueles dias longínquos de um passado que não volta mais. E a quem dedico estas crônicas.

“Lembras de nossas cavalgadas no perau do tio Ângelo”? Esta singela pergunta me tocou fundo. O rancho do Favorino foi a primeira tapera da sucessão. Para quem não sabe o que é uma tapera, conto daqui a pouco.

Gente sem nenhum senso de produção, os Moreiras faziam uma pequena agricultura de mão-pra-boca, plantavam aveia, milho e feijão, cultivavam hortas e pomares e criavam algumas vacas, cavalos e ovelhas. As vacas, para o leite das crianças. Cavalos para transporte e trabalho. Quanto às ovelhas, sempre rendiam alguns trocados nas safras de lã, para comprar aquilo que só se encontrava no bolicho: açúcar, farinha, sal, cachaça, bolachas e rapaduras. (Mais ou menos uma vez por mês, um churrasco). Todo cliente tinha uma livreta, onde seu consumo era anotado para ser pago quando Deus permitisse. O caixeiro era um profissional respeitado. Bom de contas, sempre com um lápis atrás da orelha, era invejado por não ter de “pegar no pesado”.

Meu dia começava com a estrela d’alva, quando ia com meu pai para o galpão do tio Ângelo, onde tomávamos em torno ao fogo os primeiros mates do dia. Foi aquecido por este fogo de chão que ouvi as primeiras coplas de Fierro. O mulherio também já estava de pé, preparando o pão na cozinha. Minha missão era recolher os terneiros ao entardecer - para que não nos roubassem o leite das vacas - à mangueira de pedra, construída por escravos e comum às duas casas. Na madrugada, vendo ainda a boieira no horizonte, eu juntava as vacas. Aí vinha o melhor do dia: esperar sentado, na cerca de pedras, que o pai me estendesse um caneco com o primeiro apojo.

Depois, o café na cozinha. A cozinha é o centro social da casa. Sala é só para bailes ou para quando se tem visita, e isso se a visita for de cerimônia. Algum leitor mais antigo já deve ter ouvido a expressão: “bom como namoro de prima em cozinha”. Nossa, como é bom! Eu procurava sempre sentar-me ao lado de uma, no banco grande da cozinha. Bastava os rostos se aproximarem um palmo e um calor intenso – como se fosse do fogão – nos queimava a pele.

Começava então a parte dura do dia. Cortar árvores, rachar lenha, lides de galpão, trabalhar a lavoura. Nada de tratores. Trator era luxo de estancieiro. Era no rabo do arado mesmo. A colheita era manual. Uma das piores lembranças que tenho daqueles dias era o corte de aveia. Com uma foice, vai-se ceifando a aveia, acocorado, de uma ponta a outra da lavoura. Ao final de um eito, uma dor intensa nos quadris me fazia pedir água. Os adultos, devido ao exercício continuado, pareciam não sentir nada.

Volta ao rancho para o almoço, uma siesta curta ou larga conforme a estação. No inverno, a siesta era curta, frio é bom para trabalhar. No verão, mais longa, para fugir à canícula. À noitinha, volta à Casa para mais um chimarrão, sob a copa de um cinamomo “que já não mais tinha idade”. A Casa senhorial era sempre o centro escolhido de reunião. Tinha rádio. Depois da janta, rádio e mais chimarrão. E os causos de assombração, que tantos calafrios me provocavam naquelas noites enluaradas.