¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

segunda-feira, janeiro 05, 2009
 
POR ONDE ANDARÁ
JENNIFER FEITZ?



Um dos piores vícios do jornalismo contemporâneo é a falta de suíte às notícias. As agências ou jornais noticiam um fato, que começou a acontecer ou está acontecendo, e depois nada mais ficamos sabendo da coisa. Aconteceu no dia seguinte ao Natal passado, e eu o comentei nesta bitácora. Jennifer Feitz, de 36 anos, desapareceu de um cruzeiro nas proximidades de Cancún (México), noticiou a Associated Press. A suspeita é que ela tenha caído na água. Segundo a agência, tanto a Guarda Costeira mexicana quanto a americana faziam buscas pela mulher.

O aviso de que Feitz havia desaparecido partira de seu marido, três horas após ter notado sua falta. Os dois estavam a bordo do navio Norwegian Pearl, que saiu no domingo de Miami, nos Estados Unidos, para passar sete dias no Caribe.

Bom, estamos a 05 de janeiro, já há onze dias depois do desaparecimento da moça. Não há mais notícia alguma sobre Jennifer Feitz. Busco o noticiário on line... e nada! As últimas referências datam do dia 27 de dezembro. Depois, silêncio total. Não sabemos se seu corpo foi achado, nem se as Guardas Costeiras americana e mexicana já interromperam as buscas. Nem do angustiado marido temos mais notícias. Jennifer Feitz desapareceu do noticiário tão misteriosamente como surgira.

Aventei, na ocasião, melhor desfecho para a affaire. Quem sabe a Feitz, em vez de cair no mar, caíra nos braços de algum oficial de bordo. Maridos são muito apressados. Três horas é muito pouco para uma boa folgança. Comentei também ter testemunhado caso semelhante, em uma travessia no Eugenio C. Um marido, desesperado com o sumiço de sua mulher, estava certo de que ela caíra do navio e intimou o comandante a fazer meia-volta para procurá-la em pleno Atlântico. O comandante, marujo de muitas viagens, tomou melhor providência. Chamou toda a tripulação para uma reunião e a mulher, milagrosamente, ressurgiu das águas.

Aconteceu comigo também, em outra travessia no mesmo Eugenio C. Aliás, na primeira de minhas travessias, em 1971. Encontrei-a num dos mais suntuosos salões do navio, o salone Opala. Durante as tardes, o salão ficava vazio e eu ia para lá com meus livros. Eu a bombordo, ela a estibordo. Com a oscilação do navio, ora ela estava uns dez metros acima de mim, ora dez metros abaixo. Só uma reta nos mantinha unidos, nosso olhar.

Maktub! Homem algum foge a seu destino. Estava escrito nos astros. Aconteceu o que devia acontecer. Enquanto seu marido jogava xadrez, ela jogava outros jogos em meu camarote. Como uma disputa aguerrida de enxadristas normalmente dura mais que três horas, inquietação alguma percorreu o espírito do despreocupado marido. Estabeleceu-se entre nós uma terna amizade, nos correspondemos durante anos, cheguei a perdê-la de vista. Graças aos bons ofícios da Internet, reencontrei-a há uns dois ou três anos e ela veio visitar-me em São Paulo.

Fernando Pessoa costumava dizer – repetindo refrão de antigos marujos – que navegar é preciso, viver não é preciso. O leitor menos atento julga que o poeta falava na necessidade de viajar e na desnecessidade de viver. Nada disso. Com isto, os antigos nautas se referiam à precisão da navegação: um barco parte de um determinado porto e chega, com precisão, ao porto de destino. O mesmo não acontece na vida. Pode-se chegar lá. Ou não. Tudo pode acontecer.

Há uma diferença fundamental entre uma travessia de avião e outra de navio. No avião, confinados no curto espaço que nos abriga o corpo, imobilizados por um cinto e sem ter muito como mexer-se, temos pressa em chegar. A viagem transforma-se em uma espécie de tortura. No mar, tudo muda de figura. O navio é uma pequena cidade, com dois ou três mil habitantes. No período de uma travessia, em geral dez dias, forma-se uma sociedade transitória, que será desfeita ao final da viagem. Confraternizamos com desconhecidos, estabelecemos relações, de amizade ou mais do que isto.

O clima destes cruzeiros é bastante erotizado. Os tripulantes são jovens e garbosos, o barco tem centenas de camarotes, se você abre uma porta e entra em outra tudo pode acontecer. A marujada sabe disso e não dá folga às navegantes. Uma das coisas boas dessas travessias é que não há jornais nem qualquer outra forma de comunicação a bordo. Há um serviço de imprensa que publica um jornalzinho diário, de duas ou quatro pequenas páginas. Só com notícias boas. O mundo pode estar ardendo em chamas. Mas você só vai saber quando descer do barco.

Ocorre então um fenômeno curioso. Não há vontade alguma de chegar. No navio, tudo é paradisíaco. Você levanta para tomar café, do café vai para alguma das piscinas, da piscina volta para o almoço, do almoço ruma à siesta ou sai a paquerar pelos decks, depois vem o árduo compromisso da janta e depois da janta há uma intensa vida noturna, na qual você pode optar por bailes, cassinos, teatros ou simplesmente a contemplação do mar noturno. Ou o bom folguedo. Sem falar que o vinho já está incluído no preço da passagem. Algumas empresas, hoje, incluem toda e qualquer bebida.

A perspectiva de chegar nos horroriza. Em terra, nos esperam os problemas. Cientes disto, os japoneses andaram elaborando um projeto, uma espécie de cidade marítima, com capacidade para 40 mil habitantes, que nela residiriam. Esta cidade, em permanente navegação, não se destinaria a porto algum. Não ouvi falar mais do projeto. Mas gostei da idéia. Fico imaginando uma espécie de reunião de condomínio para tomar decisões cruciais: e agora, para que mar vamos? Chegar é preciso, basta decidir. O mesmo não ocorre com o viver.

Já contei, mas conto de novo. Em uma dessas travessias, quando pretendia descer em Barcelona, antes de Lisboa o comandante do Eugenio Costa comunicou que o barco desviaria até Southampton, na Inglaterra, para apanhar quatrocentos membros do clube Saga, que fariam uma volta ao mundo de três meses. Para quem estivesse com pressa, a empresa pagaria um vôo até Barcelona ou qualquer outro porto de destino. Quem não tivesse pressa, ficava mais dois dias a bordo, sem pagar um vintém a mais. Ora, quem navega não quer chegar. Claro que fiquei a bordo. Detalhe importante: nessas travessias, os passageiros têm lugares fixos nas mesas dos restaurantes, para facilitar a logística da cozinha.

Tínhamos seis horas em Southampton e desembarquei para dar uma olhadela na cidade. Ao voltar a bordo, fui até a ponte mais alta, para olhar o que acontecia no porto. Até aí, nada demais. Acontece que o tal de clube Saga só aceitava sócios com mais 65 anos. Como eu estava na ponte superior, tive o privilégio de ver as quatrocentas velhinhas – mulheres são sempre mais longevas -, entrando pela proa ao som de uma banda, ao mesmo tempo que dezenas de esquifes eram embarcados pela popa. Chamei um oficial de bordo. Que significa isto?

“Bene – me respondeu – essas senhoras já têm idade provecta, a viagem será longa, as emoções de bordo são intensas. Calculamos que vinte por cento delas não voltam. Então, estamos embarcando oitenta caixões”. Ocorreu-me então a atroz imagem de um café da manhã no decorrer do cruzeiro, os comensais olhando em torno e contando as baixas, tentando descobrir quem ou quantos haviam morrido na noite, reformulando mesas e fazendo novas amizades, mas... enfim, por que não confraternizar no naufrágio? E onde ficam os cadáveres? – insisti. “Ah, na despensa, que é refrigerada, junto com os gêneros alimentícios. Para não apodrecerem”. Melhor não perguntasse. Almoço e janta assumiram, para mim, um outro sabor.

É uma maneira inteligente de partir, a meu ver. Em vez de ficar morrendo em casa diante de uma televisão, ou mesmo num hospital, morre-se no mar, comendo e bebendo bem, conhecendo gentes de outros povos e outras línguas, enfim, morre-se vivendo. Quando sentir que meus dias se aproximam, vou pensar carinhosamente nesta hipótese. Enfim, algo me divertiu ante aquela tétrica perspectiva. Os tripulantes, sempre prontos a passar a mão no traseiro das mais lindas passageiras, pelos próximos três meses só teriam pelanca ao alcance de seus desejos.

Mas falava da Jennifer, da qual não temos mais notícias. Por onde andará Jennifer Feitz? Terá sido engolida pelas águas mornas do Caribe? Terá soçobrado nos braços de algum marujo? Continuarão as marinhas americana e mexicana empenhadas na busca inútil de uma mulher que, ao invés de jogar-se às águas, talvez tenha preferido embarcar numa aventura?

Esta, a Associated Press fica nos devendo. Pelo que conheço da vida a bordo, não vai nos pagar. Jennifer certamente está vivinha da silva, dando explicações ao zeloso marido.