¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, janeiro 12, 2009
 
POTOCAS DO ALÉM


De um leitor, recebo:

Eu quero saber como é que a gente vira ateu, porque um cara como eu que passou a vida toda atrás de religião e assim do nada não acreditar em mais nada, como pode ser isso, eu confesso que estou com inveja de você, Janer, ser ateu e não acreditar em mais nada, em deus, cristo, maria, santos, ou então em exus, guias do candomblé, forças da natureza como silfos, gnomos, salamandras, ondinas. Cara, eu cresci dentro dessas coisas, e confesso que não me trouxeram paz nem prosperidade financeira. O que faço? Será que você poderia me dar quem sabe um conselho?

Caro, aprendi algo novo com sua mensagem. Essa das ondinas eu não conhecia. Já vi gente que assume a Guerra nas Estrelas como religião. Quanto a esses seres que vivem nos riachos, nas fontes, no orvalho das folhas sobre as águas e nos musgos, deles não tinha notícia. Me parece que pertencem mais à esfera do mito do que à da religião.

Trocando os queijos de bolso, vamos ao cerne da questão. Não saberia dizer como as pessoas tornam-se atéias. O máximo que posso falar é de mim mesmo. Para começar, é preciso entender que todos nascemos ateus. Ninguém nasce crendo em deus ou deuses. O deus é introduzido no cérebro da criança através da família, da escola, da igreja e mesmo do Estado. Então, o problema começa mal formulado. Não é que alguém se torne ateu. Ele apenas volta à condição normal de ateu, na qual todos nascemos.

Nasci num universo mais ou menos pagão onde, se havia uma vaga idéia de um deus que criara aquilo tudo, não havia culto algum a esse deus. Nasci no campo e nunca celebrei o Natal ou Páscoa em minha infância. Havia, isto sim, um culto ao fogo, as fogueiras juninas de São Pedro, São João e Santo Antonio. Suponho que os camponeses daqueles pagos não tinham muita idéia de quem eram estes senhores. Mas contemplar uma fogueira fazia bem à alma daquelas gentes.

Fui seqüestrado para as hostes católicas lá pelos seis ou sete anos, por uma catequista, mulher de um fazendeiro do Uruguai, Doña Chichi. Ela percorria a Linha Divisória numa camionete com caçamba e ia arrebanhando a piazada dos dois lados da fronteira. Para nós, a suprema aventura não era ouvir o catecismo, mas “andar de auto”. Ao final das aulas, Doña Chichi nos induzia a rezar al Todo Poderoso, para que traiga lluvia a nuestras tierras, para que se possa escoar la safra de la lana. Eu, mais pelo prazer de andar de camionete do que por outra coisa, fazia coro às preces da catequista.

Aos dez anos, conheci cidade. Fui para Dom Pedrito, onde fiz o ginásio, dirigido pelos Padres Oblatos, ordem oriunda da Alemanha. Foram excelentes mestres de línguas e matemática e souberam reunir uma boa equipe de professores laicos, para ensino de história, geografia, biologia. Aos Oblatos do Colégio Patrocínio, minha eterna gratidão pela educação que me propiciaram, educação que hoje não encontramos nem nas universidades.

O problema era a religião. A disciplina era obrigatória e a doutrinação intensa. Fui introduzido em uma doutrina baseada no terror e na reverência a um deus mudo, com especial insistência aos sexto e nono mandamentos. Pecado, para os Oblatos, eram os pecados ditos da carne. Os demais eram irrelevantes. Para comungar, precisávamos estar em estado de graça. Isto é, absolvido de todos os pecados. As confissões eram em geral aos sábados, para que no domingo a pobre alminha estivesse limpa de toda mácula. Então vinha o interrogatório constrangedor:
- Pecou contra a carne, filho? Quantas vezes? Como e onde?

Hoje, não tenho dúvidas de que os padres se masturbavam, do outro lado da tela do confessionário, ouvindo aqueles relatos. Eles foram os precursores do sexo por telefone. Só que sem telefone. Ocorre que, entre a confissão de sábado e a comunhão de domingo, havia a longa noite de sábado. No domingo pela manhã, estávamos de novo impuros, cheios de culpa e apavorados com as chamas do inferno. Mas sempre havia um padre de plantão para absolver os reincidentes.

O Patrocínio era exclusivamente masculino, quando comecei meus estudos. As aulas eram um festival desbragado de masturbação. Os padres não ignoravam aquilo, impossível não sentir o cheiro de esperma no ar. Eu, ainda impúbere, olhava para aquela azáfama toda, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Tenho ainda viva na memória uma cena digna do Gênesis. Um de meus colegas, que por ironia se chamava Caim, se excedeu no bom folguedo e o padre Lourenço se sentiu obrigado a tomar uma atitude.

- Caim, levante-se!
Desajeitado, Caim se levantou, tentando fechar a braguilha.
- Que foi, professor?
Com um dedo acusador, suponho que aquele mesmo gesto com que o anjo do Senhor expulsou Adão e Eva do paraíso, mostrou a porta da sala:
- Pegue seus livros e vá à casa.

A orgia só terminou quando Leonel Brizola encampou o colégio. Que se tornou então misto. Com a presença feminina, terminou o festival. Nessa altura, eu já chegara à puberdade. Não conseguia entender aquelas proibições. Estava cercado de meninas e queria algo mais delas do que um simples beijo. E lá vinham os argumentos de pecado contra a castidade. Na classificação da Igreja Católica, o sexto mandamento.

Peguei uma Bíblia e fui pesquisar o Êxodo, onde estão os mandamentos. Li o livro de ponta a ponta, não encontrei nem sombra da palavrinha castidade. De Bíblia em punho, chamei uma coleguinha de origem basca, a Irigaray, que eu paquerava, para lermos junto a palavra divina. Lemos tudo referente aos mandamentos.

- Encontraste alguma menção à castidade? – perguntei.
- Não.
- Então, vamos lá?
- Ai, que horror, Janer, pára com essas bobagens.

Com o tempo, aprendi que não é com lógica que se leva uma mulher para a cama. Tentando uma primeira resposta ao leitor, eu diria que a primeira coisa a afastar-me do tal de Deus foi uma sexualidade imperiosa, exigente e implacável. A carne não era fraca, como diziam os padres. Era forte. Tão forte que não conseguíamos dominá-la. Se sexo era bom e não fazia mal a ninguém, por que privar-me de sexo? Meu ateísmo começou por aí.

Obviamente, a negação de um deus não passa por uma questão de sexualidade exacerbada. Um pouco mais adiante, li a Bíblia de ponta a ponta. Aquele deus era inviável. Cruel, exterminador, genocida, Jeová estava mais para facínora do que para divindade. Além do mais, ia tomando diferentes formas, conforme a data dos livros. Só podia ser obra do intelecto humano, criação de sacerdotes sedentos de poder. Não há crença que sobreviva a uma leitura atenta da Bíblia. Não por acaso, houve época em que a Igreja proibiu sua leitura para menores de 30 anos. Não por acaso, mandou Fray Luís de Leon para as masmorras, por ter ousado traduzir alguns livros do Livro ao espanhol.

Em suma, retornei a meu ateísmo primevo lendo a Bíblia. Não sei qual foi o caminho de outros ateus. Só posso dizer que passa pela leitura. Sem leitura – apesar do que pensa o Lula – não há salvação. Não acredito que religião traga paz. Aliás, o Cristo dizia: “não vim trazer paz, mas espada”. Quanto a prosperidade, só para os sacerdotes. Os sacerdotes conseguem fortunas com blá-blá-blá. O crente, só a consegue se trabalhar duro. Se depois a atribui a Deus, é um ingênuo sem cura. É como aqueles doentes graves, que se submetem à medicina de ponta e rezam ao mesmo tempo. Se são curados, atribuem a cura ao tal de deus.

Posso não acreditar em “deus, cristo, maria, santos, ou então em exus, guias do candomblé, forças da natureza como silfos, gnomos, salamandras, ondinas”. Mas acredito em muitas outras coisas. Apesar dos pesares, acredito no ser humano. Para cada Hitler ou Stalin, sempre surge um Mozart ou Da Vinci. Para cada Paulo Coelho ou Bruna Surfistinha, sempre há um Swift ou Cervantes. Acredito na amizade, no trabalho, no engenho humano, na construção das sociedades. Acredito nas pessoas que me cercam e inclusive em mim mesmo. Acredito no bom vinho e no uísque, no camembert e no foie gras. Acredito que Paris e Madri, entre outras, existem. Acredito nos amigos e amigas que tive. Acredito que existes e acredito que, neste momento, estou conversando contigo. Estas são minhas crenças básicas. De mais não preciso.

Quanto a conselhos, caro leitor, não os dou a ninguém. Suponho que a fé faça bem a pobres de espírito. Por que privá-los então de uma crença que lhes é benéfica? Ateísmo é para quem não tem medo da morte nem acredita em potocas do Além.

Estes são raros.