¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, fevereiro 11, 2009
 
BENTO XVI RESSUSCITA
O MENSALÃO DA IGREJA



Indulgência volta à voga na Igreja Católica – mancheteia o New York Times-. Para atrair fiéis ao confessionário, Bento XVI aumenta oferta de perdão dos pecados, restituída por seu antecessor. Leitores de minha idade terão uma idéia do que seja a indulgência. O mesmo não ocorre com as gerações mais novas. Tentarei ser didático.

Segundo Henry Charles Lea, autor do clássico Histoire de l’Inquisition au Moyen Âge (1458 ps), a indulgência, em suas origens era simplesmente o resgate de uma penitência, a substituição de qualquer obra pia – como uma liberalidade para com a Igreja – pelos enormes período de penitência que os Penitenciais impunham para o resgate de qualquer pecado individual. Era, em realidade, uma indulgência, quando Guido, arcebispo de Milão, se impôs em 1509 uma penitência de um século, para expiar uma rebelião contra a Santa Sé, e a resgatou pelo pagamento de uma soma anual.

A indulgência plenária, ou a remissão de todos os pecados, tem por protótipo a promessa feita por Urbano II, no concílio de Clermont em 1095, quando, para inflamar o entusiasmo da Cristandade em vista da Primeira Cruzada, declarou que a peregrinagem armada à Terra Santa serviria como penitência para todos os pecados que os peregrinos tivessem confessado e dos quais se houvessem arrependidos. A avidez com que esta oferta do papa foi recebida mostra o quanto era apreciado um favor que libertava do temor do Inferno sem entristecer a vida inteira pelas austeridades da penitência. Trocando em miúdos: em vez de pagar sua salvação em prestações, o crente a pagava à vista.

Daí à criação do Purgatório, bastou apenas um passo. A simplicidade desta fórmula desapareceu no século XII – escreve Lea – época em que os Escolásticos elaboraram a teoria sacramental e quando a crença no Purgatório se tornou generalziada. Distinguia-se, no perdão dos pecados, a remissão da culpa e também da pena. A absolvição dada pelo padre conferia a primeira, que salvava do Inferno, enquanto que o cumprimento da penitência, ou o resgate desta por uma indulgência, conferia a segunda, que isentava o pecador do Purgatório. Segundo os teólogos da época, a fonte das indulgências seria o tesouro dos méritos e Jesus e dos santos, que a Igreja poderia oferecer a Deus em troca da penitência devida pelo pecador. Uma indulgência plenária continha uma parcela suficientemente grande deste tesouro para apagar a pena; uma indulgência parcial precisa o número de dias ou de anos e a penitência à qual ela equivale.

Inicialmente, a indulgência podia ser conferida por padres, bispos e mesmo abades. O concílio de Latrão (1216) tentou pôr um limite a abusos. Quando a indulgência tornava-se um pagamento feito a Deus e era tirada do tesouro inesgotável dos méritos de Jesus, considerou-se que esse tesouro deveria ter um tesoureiro, que era naturalmente o papa. Ele tornou-se assim o dispensador único das indulgências, função que aumentou sua autoridade e reduziu os bispos ao papel de delegados do pontífice. Do ponto de vista temporal, resultou para o papado uma enorme vantagem – a faculdade de erguer exércitos para exterminar seus inimigos e estender seus domínios. Pois a promessa de uma indulgência plenária a ser merecida por uma cruzada atraía sob suas bandeiras milhares e milhares de campeões.

Ou seja: em suas origens, as indulgências tiveram uma poderosa função bélica. Mais adiante, foram conferidas aos Inquisidores, o que só atiçava sua sanha em encontrar hereges. Longa é a história das indulgências, mas seu momento mais crítico ocorreu em 1517, mais precisamente no dia 31 de outubro, quando Lutero pregou sobre a porta da igreja de Wittenberg suas 95 teses, que acabaram originando a Reforma Protestante, um movimento legítimo de denúncia da corrupção da Igreja romana. O ponto mais contundente destas teses é a denúncia do comércio das indulgências, o golpe utilizado pela Igreja para manter e aumentar seu fausto e a fortuna dos papas, cardeais, bispos e vigaristas menores. Me permito reproduzir algumas das teses, para refrescar memórias enferrujadas.

17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.


Lutero acabou com o mensalão da Igreja. A data da afixação de suas teses é tida por alguns historiadores como o fim da Idade Média. Bento XVI quer agora restaurar a instituição medieval, que chegou a provocar um cisma em seu rebanho.

"Por que estamos trazendo a indulgência de volta?", indagou o bispo Nicholas A. DiMarzio, do bairro do Brooklyn (Nova York), que aderiu à ideia. "Porque existe pecado no mundo." Não se pode mais comprar indulgências. A Igreja proibiu suas vendas em 1567, meio século após as denúncias de Lutero. Mas não se furta a aceitar contribuições caridosas. Ou seja, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

A volta das indulgências começou com o papa João Paulo II, que em 2000 autorizou os bispos a oferecê-las como parte das celebrações do terceiro milênio da igreja – diz o New York Times. Fazer os católicos voltarem ao confessionário foi uma das motivações que levou à reintrodução das indulgências. Segundo o jesuíta Tom Reese, ex-editor do semanário Catholic Magazine America, "a igreja quer pôr a idéia do "pecado pessoal" de volta na equação. As indulgências são uma maneira de lembrar aos fiéis a importância da penitência".

A Igreja romana retoma superstições medievais e depois se pergunta porque está perdendo fiéis. Quer voltar às idéias de penitência, indulgência, pecado e confissão. Transmito meus sinceros votos ao Sumo Pontífice: tomara que volte logo. Terá encontrado a fórmula mais rápida de afundar de vez.