¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, fevereiro 02, 2009
 
BÍBLICAS CONTRADIÇÕES:
CORAÇÃO OU ENTRANHAS,
PORTA, BURACO OU FRESTA?



Escrevia há pouco um leitor que “o Autor da Bíblia é o mesmo Autor da Criação”. De que Bíblia fala o leitor? Da Tanak, da Bíblia católica, da evangélica? Porque há várias bíblias, e cada uma difere da outra. Isso sem falar nos textos de Qumran e dos Pseudoepígrafos do Antigo Testamento. É preciso também saber a qual tradução você se refere, pois há uma diferença substancial entre a King James, a Bíblia de Jerusalém, a de João Ferreira de Almeida ou a editada pelas Irmãs Paulinas. Esta última tradução, transformou a Bíblia num livro marxista.

Por outro lado, os autores dos livros bíblicos são em geral desconhecidos, mesmo que tenham sua autoria atribuída a este ou aquele rei, patriarca ou apóstolo. Moisés é tido como o autor dos cinco livros do Pentateuco. Mas como poderia um homem rude do deserto discorrer abundantemente sobre história, legislação, organização das cidades, regimes alimentares, construção de templos, liturgia? Além do mais, Moisés narra sua própria morte. Pode?

Cada religião ligada ao Livro montou seu cânone. O da Tanak foi coligido pelos rabinos, o da Igreja Católica pelos padres de Roma, o da Bíblia luterana por Lutero. Cada religião puxou brasa para seu assado. Cabe lembrar que há vários cristianismos derrotados ao longo da História. Os seguidores de Cristo que denunciavam o fausto do Vaticano ou que – de uma forma ou outra – não convinham a Roma, eram tidos como hereges e devidamente enviados à fogueira.

Não há duas traduções iguais da Bíblia. Se duas traduções fossem iguais, não seriam traduções, mas plágio. Sem falar nos textos que a Igreja recusou. Testemunhos da época sobre o Cristo – particularmente os que pregavam uma relação direta com Deus, dispensando assim o sacerdote - foram tidos como apócrifos e não constam do cânone oficial.

Tenho nove bíblias em minha biblioteca e uma no computador. Para comparar os cânones e as traduções. Tenho inclusive a Bíblia da Galllimard, em três volumes, considerada a mais fiel das traduções. O segundo volume, intitulado Écrits intertestamentaires (1906 pgs), dá acolhida aos textos de Qumran e aos Pseudoepígrafos, tão ou mais legítimos que os acolhidos pelo cânone católico.

Como lazer, me dedico à comparação da tradução de versículos. Outro dia, apontei um grave desvio nas traduções, que transformaram um livro politeísta em monoteísta. Ainda há pouco, citei um trecho do poema maior da Bíblia, o Cântico dos Cânticos. E tive o prazer de receber esta mensagem do Alex, pessoa também preocupada com traduções:

Prezado Janer (se me permite a intimidade),

Em dezembro, descobri seus escritos. (...) Assim como a Lia, e ao contrário do Rodrigo, seus leitores, gosto muito dos "momentos sublimes da Bíblia". Acredito que eles vão muito além do banho de sangue dos textos. Eles demonstram o quanto os cristão típicos desconhecem seu material de culto, o quanto o "Deus é amor" pode ser algo terrivelmente falacioso...

Posso sugerir-lhe um momento sublime para o Blog? Acho "moralmente edificante" o relato sobre a velhice do rei David. Como o rei não "aquecia", seus servos resolveram buscar no reino uma jovem e formosa virgem. E ainda assim, apesar da moça servir ao rei e dormir com ele, o grande David continuou não "aquecendo". (1 Reis 1:1-4) Aliás, essa moça, Abishag, a Shunamita, deve ter sido um estouro, já que ela é comparada ao reino de Israel. Quando Adoniah tem de entregar o reino ao seu irmão Salomão, ele quis ao menos ficar com Abishag. Impertinência grande demais para o futuro mais sábio dos homens, que ficou famoso, ou nem tanto, pelas suas 700 esposas e 300 concubinas. Por causa da ousadia do seu irmão, Salomão mandou matá-lo!

Posso fazer um adendo à sua citação do Shir Ha-shirim, no blog da última quarta-feira? Inicialmente, também acho estranhíssimo tanto este quanto o Koheleth estarem no cânone. Pior são as desculpas para justificarem a presença deles nos escritos santos. No caso do cântico dos cânticos, o que ele seria? O amor entre Javeh e os judeus, o amor entre Cristo e a Igreja ou entre deus e a alma humana?

Ainda sobre os cânticos de Salomão, o trecho que você citou é um dos meus prediletos. Mas acredito que a tradução que você utilizou está muito "amaciada". Não me parece que foi o coração que estremeceu pelo amor do amado. A palavra hebraica em questão, vmjy, pode ser traduzida como entranha, e não coração. Além do mais, o texto hebraico não cita porta, e nem dá pistas disso. Então, talvez, uma tradução mais próxima do original, mas com muito menos poesia e ainda mais erotismo seria: "Meu amor meteu a mão pelo buraco, e minhas entranhas estremeceram por ele." Curiosamente, é semelhante à tradução da minha bíblia católica, tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, que diz: "Meu amado meteu a mão pela fresta, e as minhas entranhas estremeceram ao estrondo que ele fez."

É isso. Abraços calorosos (mas sem aquecimento, ok?)

Alex

Em mail posterior, intrigado com o assunto, Alex expande suas pesquisas e aumenta sua perplexidade:

A Santa Sé, muito bondosa, disponibiliza em www.vatican.va a Nova Vulgata. O trecho em questão aparece assim (cap. 5, v.v. 4): "Dilectus meus misit manum suam per foramen, et venter meus ilico intremuit."

Janer, diga-me você que, na sua meninice, aprendeu latim com os padres! Dá para render "venter" como "coração"? Na mesma página vaticanista que contém o "link" para a Nova Vulgata, há também "links" para traduções em inglês, espanhol e italiano.

Vejamos em espanhol: "Mi amado pasó la mano por la abertura de la puerta, y se estremecieron mis entrañas."

Em italiano: "Il mio diletto ha messo la mano nello spiraglio e un fremito mi ha sconvolta." Não entendi esse texto. Será que houve algum erro quando ele foi compilado para a web?

Em inglês: "My lover put his hand through the opening; my heart trembled within me."

Minhas entranhas estremecem-se, Janer. O texto em inglês está muito mais consoante com a versão que você usou. O que acontece? Será que os cristãos estão nas mãos de tradutores incompetentes? Será que agendas divergentes, mesmo dentro do universo católico, são tão poderosas a ponto de influenciarem traduções? Será que há um grupo de conspiradores que buscam a "suavização" dos textos santos? Ou será que alguns tradutores, bem intencionados, procuram mudar os textos com o objetivo apenas de deixarem tudo mais poético?


Meu caro Alex:

Eu já havia comentado rapidamente sobre Abisag. Vou acatar sua sugestão. Qualquer hora reproduzo a singular técnica de aquecimento do sábio rei Davi. Quanto ao Cântico dos Cânticos, já li uma interpretação rabínica segundo a qual, quando se fala do umbigo da Sulamita, não se trata do umbigo da Sulamita. E sim do Sinédrio. Assim como o umbigo é o centro do corpo, o Sinédrio é o centro do mundo.

Os católicos, por sua vez, vêm no poema uma busca da Igreja por seu amado, o Cristo. Confesso que nunca imaginei que a Igreja pudesse perambular pelas ruas de Jerusalém, possuída por tanta tesão. Quanto às traduções que você propõe dos calores da Sulamita, me parecem muito procedentes. Porque as entranhas da moça estremeceriam só porque o amado meteu sua mão pela fresta de uma porta?

Quanto a spiraglio, vejo em meu dicionário De Agostini: piccola fesura in un muro, in una finestra, in una porta, da dove passano l’aria e la luce. De novo a idéia de fresta.

Como dizia, cada tradutor puxa brasa para seu assado. Israel, quando se tornou mais poderoso, quis tornar seu deus único e procurou, através dos tradutores, eliminar a idéia de deuses. Deus seria um só. Quanto ao Cântico dos Cânticos, a idéia era retirar todo erotismo de um livro erótico e transformá-lo em uma metáfora das relações da Igreja, a noiva, com seu amado, o Cristo.

A Bíblia é certamente o livro mais deturpado por tradutores através dos séculos. Como não temos em mãos os manuscritos originais, mas apenas cópias de cópias de cópias, permanecemos no escuro e podemos apenas apresentar hipóteses plausíveis sobre as traduções.