¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, fevereiro 14, 2009
 
COMO OS JORNAIS
CRIAM BARRIGAS



A crônica fácil é uma tentação irresistível, particularmente para quem escreve todos os dias. Uma menina jovem, bonita, oriunda de país subdesenvolvido, além disso advogada, vivendo longe dos seus e tentando construir sua vida em país rico e hostil, é retalhada a faca por jovens nazistas na Europa. Mais ainda: estava grávida – de gêmeos – e abortou. A vítima já nem é só uma, mas três. Contraposição perfeita e simétrica, o bem e o mal absolutos. A fêmea indefesa e os machos prepotentes. A inocência dos trópicos e a perversidade do norte. A crônica está feita. Só falta encher a lingüiça com uma série enfadonha de lugares-comuns humanísticos.

A pergunta retórica eivada de batida erudição literária: “Lembra, nobre leitor, quando tudo indicava que o prazo de validade de "1984", de Orwell, havia expirado? Com Fukuyama, nós não chegamos a achar que a luta de ideologias e de classes e tudo o que delas emanava havia chegado ao fim? Pois a atual crise econômica é como um bafo rançoso no cangote. Com ela, a intolerância e a xenofobia que estavam dormentes na Europa acordaram. E de mau humor”.

O espanto sagrado ante a maldade que impera no coração dos homens: “O atentado contra a advogada brasileira Paula Oliveira nas imediações de Zurique é um desses episódios tão bestiais que dá vontade de passar ao largo, fingir que não leu, para não ter que aceitar que a humanidade ainda oferece tal grau de selvageria”.

A desumanidade intrínseca ao capitalismo, mesclada a um dorido aceno ao saudoso socialismo: "Globalização remete a livre mercado e a portas abertas, mas o que se vê são os mercados e as portas dos ricos batendo na cara dos outros. Não de todos, só de uns, seletivamente. Se a Paula fosse de Washington, Chicago, São Francisco ou Boston, seria vítima desse absurdo? Não. Então... se a história foi como foi, a Paula somos todos e cada um de nós”.

E por aí vai. Os ingredientes para a confecção da lingüiça são muitos e estão disponíveis no vasto mercado do pret-à-penser. Não precisa nem comprar, é só escolher e pegar. Um episódio como o de Zurique estabelece uma competição feroz entre cronistas e colunistas, cada um querendo mostrar mais rapidamente maior indignação do que o outro. Esperar doze horas para checar melhor os fatos? De jeito nenhum! Se eu, que sou o decano dos cronistas desta Folha, não escrevo agora, aquela deslumbrada com nome de vermute vai passar por mais humanista que eu. Se eu, a cronista lúcida e cosmopolita, não escrevo agora, aquele bode velho de barbas brancas vai passar por mais ágil do que eu. Se eu, a colunista linda, jovem e equilibrada, espero mais doze horas, aqueles dois medíocres decrépitos me roubam a crônica. E assim se constrói uma barriga internacional, que só serve para duas ou três coisas:

- diminuir ainda mais a credibilidade já escassa da imprensa
- ressuscitar a finada luta de classes – lembram? – aquele eterno combate entre a classe dominante e os oprimidos
- perturbar a boa – ainda que distante – vizinhança entre dois países
- e ridicularizar ainda mais o presidente da República, se é que ele ainda é passível de ser mais ridículo.

Esta emulação perversa que permeia a imprensa toda, antes de ser dos cronistas ou colunistas, é dos próprios jornais. Se nós não damos, o Estadão dá, pensa a Folha. Se nós não publicamos, a Folha nos fura, pensa o Estadão. Estão dados todos os elementos para o desastre. Depois... bom, depois se remenda como for possível. Além do que a memória do leitor é curta. Daqui a um mês ninguém fala mais no assunto.

Exceto esses cronistas independentes e deselegantes, que teimam em lembrar o passado em nome de ultrapassados princípios que o jornalismo contemporâneo não mais cultiva. Eu sou um destes cronistas irritantes, e vou lembrar mais dois ou três embustes coletivos de nossa imprensa.

Poderia lembrar dez, cem, mil. Mas dois ou três já são suficientes para mostrar ao leitor que quem acredita em tudo que lê, melhor faria se não tivesse aprendido a ler.