¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, fevereiro 05, 2009
 
DO UNIVERSO ENTRE AS NAÇÕES
RESPLANDECE A DO BRASIL



O bom de escrever na rede, é que temos leitores atentos. De Chico Aragão, recebo estas observações.

Recentemente você falou sobre uma suposta despesa de 40 milhões de reais que o governo teria realizado na compra de 15 milhões de sachês de gel lubrificante. Conhecedor do valor desse artigo, fiquei bastante intrigado com esse valor, que seria o cúmulo do superfaturamento. Ora, com 40 milhões de reais daria para comprar milhões de tubos grandes de gel. E justiça seja feita às licitações do Ministério da Saúde, que as compras de camisinhas feitas por eles sempre redundam em pagamentos ínfimos por cada um dos preservativos.

Pesquisando direto pelo Google sobre a tal compra, descobri que a maior parte das referências aos tais "40 milhões" vinham de sites de religiosos radicais, que por sinal odeiam o Temporão por conta da sensibilidade dele às questões de saúde da comunidade homossexual e outros assuntos, como o aborto. Aliás, se me permite o comentário, nessas questões os seus pontos de vista vem sendo bastante similares aos dele. Uma coisa que me intrigou foi a repetição nesses sites da seguinte frase: "O Erário deve gastar cerca de R$ 40 milhões, calcula o funcionário do Ministério da Saúde que me forneceu o edital."
(...)
Por isso fui pesquisar, primeiramente examinando o Edital completo disponibilizado num dos sites religiosos que mencionei e lá descobri que as informações sobre o tal Edital 142/2008 estão no http://www.comprasnet.gov.br Não sem alguma dificuldade, porque a navegação naquele lugar é um bocado confusa, consegui encontrar o desfecho (ao menos oficial) da tal licitação. E nele descubro que o valor total da compra foi de R$ 1.160.000,00 - o que pode parecer ser absurdo para quem considera um absurdo que o governo se ocupe de políticas de prevenção a DSTs entre homossexuais, mas está longe de ser o valor absurdo de 40 milhões por 15 milhões de sachês divulgado por aí. Segue em anexo um print screen da tela do site mostrando os valores.


Bom, fui ao site citado e comprovei que de fato o valor foi R$ 1.160.000,00. Grato pela informação, Chico. Mas não pesquisei em sites de religiosos radicais. Furunguei textos de blogueiros laicos e não lembro de ter passado por nenhum site religioso. Outra coisa boa da Internet, é que não se precisa fazer um recall das edições para corrigir um erro. Dois ou toques de tecla e a correção está feita. É o que farei nas crônicas em que citei a cifra de 40 milhões.

Quarenta ou 1,1 milhão, minha posição não muda um milímetro sobre a questão. Considero um absurdo um ministério da Saúde fornecer lubrificante anal aos cultores da prática. Como dizem as gentes, se dá só no Brasil e não é jaboticaba, não pode ser coisa que preste. Cada vez que me deparo com o fator jaboticaba, procuro na memória outros países onde tal prática possa estar ocorrendo. E não os encontro. Mesmo em países liberais, onde o aborto é assumido pelo Estado, não ocorreu a nenhum ministro oferecer lubrificante anal aos cidadãos. Já considero a distribuição de camisinhas um solene despautério. Mas vá lá! Melhor prevenir que arcar com os custos sociais de um aidético. De qualquer forma, o Estado está tratando o cidadão como uma criancinha que não sabe que cuidados tomar para não machucar-se.

Parabéns, oh Brasileiros,
Já com garbo varonil
Do Universo entre as Nações
Resplandece a do Brasil.
Do Universo entre as Nações
Do Universo entre as Nações
Resplandece a do Brasil.

Meu leitor vai mais longe: “O fato é que sem o uso de gel nas relações anais o risco de rompimento do preservativo aumenta consideravelmente”. Enfim, mais longe sempre se pode ir. O ministério da Educação bem que poderia oferecer todo um kit, com Viagra, papel higiênico, sabonetes e mesmo toalhas, tudo para o conforto sexual dos cidadãos. Quem sabe dildos, para os que são avessos a contatos humanos e preferem a solidão. Para aqueles que, por questões estéticas ou deficiências físicas, tivessem dificuldades para relacionar-se, o Estado ofereceria até mesmo um parceiro, uma espécie de assistente social, com estômago suficiente para atender todo e qualquer cliente. Se o Estado contempla as carências dos sem-terra, por que não seria da mesma forma generoso com os sem-sexo?

Sempre fui – e disto todos sabem – a favor de todas as manifestações sexuais, desde que sem constrangimento ou violência. Mas sexo é questão privada. Não admito que as Igrejas se imiscuam nas relações entre os indivíduos. E muito menos o Estado. O Estado só pode intervir em questões sexuais em caso de crime. Fora disto, que mantenha distância.

De qualquer forma, sou grato à correção do Chico Aragão.