¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009
 
EUA E ISLÃ, UM MESMO COMBATE:
QUANDO OS EXTREMOS SE TOCAM



Esta controvérsia é tão localmente determinada, tão norte-americana, como a apple pie ou o Oncle Sam. Em nenhuma outra nação ocidental se poderia considerar tal monstruosidade como um movimento político sério: ele apareceria à evidência como o fato de quaisquer bêbados sem importância e totalmente marginais.

(Stephen Jay Gould, 1999, à propósito do debate entre evolucionismo e criacionismo).

Sempre considerei este debate uma idiossincrasia de ianques. De repente, Charles Darwin tornou-se o grande inimigo de Deus. Como se para negar Deus fosse preciso recorrer à teoria da Evolução. Para negar Deus basta a Bíblia. Desconheço melhor arma contra o cristianismo.

Curiosamente, é uma briga de evangélicos. Onde existirem evangélicos, eles levam Darwin consigo. No Brasil, o debate começou em 2000, quando o então governador do Estado do Rio de Janeiro, Antony Garotinho, sancionou lei que previa que o ensino religioso fizesse parte do currículo das escolas públicas. Dois anos depois, Garotinho assinava decreto que regulamentava o ensino religioso confessional. Em 2004, soube-se a que vinha o casal: Rosinha Matheus, integrante da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, diz que é criacionista e que não aceita a tese da evolução das espécies. Os decretos de seu marido apontavam para algo muito preciso, a introdução do criacionismo no currículo escolar. Ainda em 2004, a Secretaria de Estado da Educação do Rio define que o tema anual para as aulas de religião será a “criação”, e que o criacionismo será discutido de forma superficial.

O criacionismo é a tese de que a criação do Universo e da vida é resultado da intervenção divina, como está na Bíblia. Em São Paulo, não por acaso, coube ao Instituto Presbiteriano Mackenzie, que abrange uma universidade e uma das escolas mais tradicionais da cidade, assumir oficialmente a posição criacionista. A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies.

E cá estamos nós, brasileiros, importando mais uma vez o que há de pior nos Estados Unidos. Quase 200 anos depois de Charles Darwin (1809-1882) e 150 após a publicação de sua grande obra, Origem das Espécies, os educadores do Mackenzie aceitam só o que chamam de “microevolução” (organismos se adaptam a novas condições do meio).

Segundo Marcelo Leite, da Folha de São Paulo, o Mackenzie não aceita "a macroevolução (tal adaptação não seria suficiente para originar novas espécies, em verdade criadas por Deus). Na escola, a doutrina criacionista é apresentada nas aulas de religião e nas de ciências. Ano passado, uma série de apostilas adaptadas de material da Associação Internacional das Escolas Cristãs foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1".

Ingenuamente, eu imaginava que o debate se havia encerrado em 1925, quando o promotor William Jennings Bryan, da cidade de Dayton, acusou de darwinismo o professor de ciências John Scopes. Deste debate, surgiu o E o vento será tua herança, de 1960, dirigido por Stanley Kramer.

Paradoxalmente, os evangélicos americanos encontraram um aliado de peso... entre os muçulmanos. Leio na última edição do Nouvel Observateur, que muçulmanos e evangélicos estão fazendo causa comum do combate ao darwinismo. Surgiu na Turquia uma espécie de Edir Macedo mediterrâneo, Harun Yahya (pseudônimo de Adnan Oktar), líder dos neocriacionistas muçulmanos que pretende nada menos que converter a Europa. Oktar está distribuindo aos milhões em todas as escolas e instituições da Europa – e particularmente na França – uma estranha obra de sete quilos e 800 páginas, intitulada O Atlas da Criação, que acusa o darwinismo de todos os males de nossas sociedades: racismo, eugenismo, fascismo, nazismo, comunismo, ateísmo, materialismo e mesmo o atentado às Torres Gêmeas.

Alguém ainda lembra daquele astrólogo boca suja, que vive de caridade pública, na Virginia, Estados Unidos? Ele defendia a idéia de que o ateísmo e o comunismo eram decorrências do darwinismo. Voilà les sources! No Brasil nada se cria. Tudo se copia.

Okar, o profeta turco em cruzada contra Darwin, já foi suspeito de detenção ilegal de armas, uso de cocaína, relações sexuais com menores e de assédio à topmodel Ebru Simsek. Segundo Ali Bayramoglu, sociólogo e editorialista do jornal Yeni Çafak, o grupo de Oktar funciona como uma seita mafiosa. “Ele tem certamente apoios bem colocados, suportes financeiros importantes e não hesita em comprar ou intimidar todos aqueles que se opõem a seu empreendimento. Ultimamente, conseguiu proibir três sites na Internet que o contestavam. Hoje, na Turquia, ousa-se mais facilmente criticar o Exército do que criticar Oktar”.

Embora seu “tijolo” de sete quilos tenha sido enviado aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha, à Suíça, à Itália e à Suécia, seu principal alvo é a França, o país das Luzes. Seu cálculo é simples. Se as idéias criacionistas conquistam esta terra de filosofia laica, o combate estará ganho. A erradicação do darwinismo seria uma primeira etapa. Seu grande sonho de uma Europa piedosa seria realizado e a população voltaria a ser crente.

Suspeita-se que Oktar seja financiado por seus homólogos protestantes dos Estados Unidos. Os livros do guru turco são quase cópias-colagens de obras americanas. Em seu ódio ao conhecimento científico, os evangélicos ianques não hesitam em unir forças com o inimigo figadal do cristianismo, o Islã.