¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009
 
MENSAGEM DO GERSON


Caro Janer

Queria cumprimentá-lo pela demonstração de infinita paciência nas respostas aos "intelectuais" que defenderam o "grande evento de Belém". Estive pensando sobre tudo o que está acontecendo. Na semana passada fiquei dez dias no Nordeste junto com um casal amigo e passei a observá-los. Marido e mulher (um casal jovem) simplesmente não conseguem conversar nada mais profundo que: "o que vamos comer amanhã" ou "sua filha está chorando" ou "o sol está quente" e mais um punhado de frases de pobre conteúdo. Quando arriscam alguma opinião sobre qualquer assunto é sempre algo baseado em "achismo pessoal" mas com uma autoridade inqüestionável que elimina qualquer argumentação. Cheguei a conclusão que o brasileiro em geral está caindo rapidamente num sono profundo de ignorância promovida pelos "esquerdopatas" no Comando do País.

São ações de cartilha amplamente descritas há mais de 20 anos, com clareza cristalina, pelo ex-kgb Yuri Bezmenov. Trinta anos ou mais de exclusão cultural formou uma geração de zumbis altamente controláveis.Daí a minha triste conclusão: Não se trata de "se" mas de "quando" seremos apresentados oficialmente ao diabo vermelho.O padrão das respostas de seus leitores indignados são uma pequena amostra de que poucos terão condições de reagir diante de tudo que virá, e, mesmo estes, neste momento, provavelmente já estão se preparando para deixar este pobre país. Quanto a mim, estou separando um bom vinho para tomar na viagem.

Grande abraço,

Gerson


Grato, Gerson!

É o que eu chamo de nível zero da fala. "Sabe, eu ia fazendo a curva e um outro carro me fechou". "Levei um choque quando fui consertar o chuveiro". "Pedi uma cerveja e ela não estava gelada". "Cheguei em casa e não conseguia achar a chave da porta". O discurso deles termina aí. Não conseguem formular uma idéia e muito menos relacionar uma idéia com outra. Eu os conheço bem, eles pululam no boteco onde, aos sábados e domingos, vou ler meus jornais e tomar uns tragos introdutórios ao vinho do almoço. Há uma mesa, da qual sempre tomo distância, onde o assunto é exclusivamente futebol. Não discutem política, corrupção, problemas da cidade, coisas da vida, nada. Só futebol. Abstrações como literatura, amizade, arte, ou mesmo coisas bem mais concretas como culinária ou viagens, ni pensar.

São em geral pessoas que jamais saíram do país e não têm, portanto, elementos de comparação. Certo dia, numa mesa, eu tecia algumas críticas a instituições nossas, quando do outro lado da mesa ergueu-se o patriotão: "Então, o que você está fazendo aqui?" Ora, estou aqui porque neste momento o Brasil é o país que mais me convém. Tenho passaporte brasileiro, posso transitar por todo o território nacional, posso habitar onde quiser e me reservo totalmente o direito de criticar meu país. Tenho mais condições de criticar o Brasil do que qualquer outro país do qual pouco ou nada conheço.

O animal levantou-se, foi até seu carro, trouxe um monte de bandeirinhas brasileiras e as espalhou pela mesa. Pelo jeito, era o argumento que ele tinha sempre à mão, para responder a toda e qualquer crítica a seu lindo país.

Claro que abandonei aquela mesa. Com meu pequeno círculo de amigos, já o papo é outro. São pessoas que falam várias línguas e viveram em vários países. O tema viagem é preferencial. Falar em viagens é falar em culinária e literatura. Falar em literatura é falar do amor e das mulheres. Gostamos também de discutir história, música e teologia. São pessoas que estão sempre lendo e portanto sempre se renovando. Fora da leitura não há salvação.

Toma distância, meu caro Gerson, dos homens da fala zero. Não nos dão nada e nos roubam o tempo de estar lendo ou ouvindo alguma pessoa interessante.