¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, fevereiro 06, 2009
 
MENSAGEM DO MARC AUBERT


Caro,

O Gerson botou o dedo na ferida; a grande, enorme, maioria das pessoas se enquadram no perfil do casal. Tudo bem que não se converse a respeito de Aristoteles, Tomás de Aquino, Bach, Hegel, o tempo todo: um pouco de besteirol também faz bem à alma, de vez em quando (futebol não!).

A atrofia intelectual dessas pessoas é estarrecedora; conheço um bom número delas e tenho,por motivos vários, o desprazer de privar de sua companhia. Pior, formados, pós-graduados, doutorados (e fora do país, o que não é pouca porcaria). Viajam para fora do Brasil pelo menos uma vez por ano para quê? Frequentar o mesmo restaurante em Praga, a mesma tratoria em Florença, comer a mesma fondue em Saint Moritz; passear pelas ruas, visitar museus, uma ópera no coliseu de Verona, nem pensar: dá azia. E haja fotos para encher o saco!

E votaram, duas vezes, no apedeuta.

Uma das boas coisas da vida é um bom grupo de amigos e uma boa conversa, com divergencias ou não (unanimidade é burra) com alguns petiscos e um bom vinho, não é mesmo?

Agora, sobre o patriotão: sou suiço de nascimento e vivo no Brasil desde 1952; vim para cá porque tinha dez anos e não apitava em nada em assuntos familiares; meus pais e outros parentes vieram para cá pois acreditavam que aqui era o país do futuro. Era e ainda é: um presidente do conselho federal da Suíça disse, há tempos: "Le Brésil est le pays du futur et il le restera".

Meu pai, que era naturalizado, adorava esse tipo de gente e tinha uma resposta curta e grossa quando era interpelado por algum (e olha que são muitos) deles: "eu posso criticar o que acho de errado e com mais autoridade que você: sou mais brasileiro que você pois sou brasileiro por opção; você não, você nasceu aqui e não tem mais o que fazer."

Meu pai era jornalista, correspondente de alguns jornais da Suíça, escritor e poeta, recitava Shakespeare de cor, gostava de um bom vinho e era um mau caráter de primeira. De família tradicional de Genève, foi calvinista, converteu-se ao catolicismo (virou a ovelha negra da família) freqüentava a missa na catedral Ortodoxa Russa em Genève e, graças ao bom Deus, terminou seus dias como um ateu, e vive hoje em Olinda, no cemitério de Guadalupe.

De volta ao patriotão: vivo no Brasil, sou casado com minha baixinha brasileira (perdão pela apropriação, mas sempre a chamei assim), tenho filhas maravilhosas e netos pestinhas. Pago meus impostos, sem receber nada em troca, e adoro esse país que, contra a opinião de alguns, não é melhor lugar do mundo.

Tive uma recaida de helveticidade em 1990, logo que o saudoso Collor assumiu o governo, e fui tentar a vida na Pátria; fui escorraçado e voltei com a cauda entre as pernas. Por isso, me acho no direito de criticar os erros, contra tudo e contra todas os patriotões que só se lembram da Pátria por ocasião da copa do mundo de (eca) futebol.

Falando em futebol, todo mundo me olha torto se falo que o Sr. Blatter é um corrupto (afinal é meu compatriota) e me xingam quando digo o mesmo do pupilo dele, Sr. Ricardo Teixeira; esse aí é um coroinha, se comparado ao outro.

Naõ sou naturalizado e só o serei se puder ser presidente da República. Se o Sr.Obama é queniano (apud your friend Olavo de Carvalho) porque não eu?
Eram só algumas linhas e veja no que deu...

Um abraço, Marc