¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, fevereiro 15, 2009
 
O FANTASMA NEONAZI *


Um dos casos mais perturbadores de manipulação dos fatos ocorreu no verão europeu de 93, na Holanda. A reunião de pauta da Folha de S. Paulo foi excitada naquele dia. Uma menina marroquina, Naima Quaghmiri, nove anos, morrera ao cair em um lago em Roterdã. Duzentas pessoas teriam assistido seu afogamento, sem prestar-lhe socorro. O pauteiro brandia o telex com fúria. A idéia era produzir uma manchete como

RACISTAS HOLANDESES DEIXAM
MORRER FILHA DE IMIGRANTES


A notícia era absurda. Duas centenas de pessoas não observam, passivamente, uma criança se afogando. O lago, uma espécie de açude, como mostrava a foto, era raso. No meio dele, havia um bombeiro com água pela cintura. Dois dias depois, novo despacho retificava o anterior. Não havia uma menina se afogando e duzentos holandeses assistindo. Naima se afogara horas antes. Policiais e bombeiros haviam pedido aos veranistas que formassem um semicírculo, de mãos dadas, e percorressem o lago em busca do cadáver. Os veranistas se recusaram.

Perguntei ao editor se a reportagem seria retificada. "Não precisa" — disse — “Amanhã ninguém mais lembra disso”. Mas jornalismo é o registro da história, é nos arquivos do passado que os pesquisadores do alegado amanhã buscam dados para seus ensaios, aleguei. "O que de fato acontece" — disse o editor — "só vamos saber meses depois. Jornalismo é assim mesmo".

Ao remexer os arquivos de jornais, os pesquisadores do futuro ficarão sabendo que a Holanda era um pequeno país europeu, habitado no século passado por cruéis racistas brancos, capazes de negar auxílio a uma criança marroquina que se afogava. Isto foi confirmado pela própria Folha. Em 94, um de seus redatores, em artigo sobre racismo, retoma o fato como verdadeiro.

O jornalismo contemporâneo, para atingir o maior número de leitores, baliza o texto com fotos ou grafismos de modo a tornar o mais esquemática possível a mais complexa das realidades. Como a mente do leitor já vem alimentada por um imaginário do cinema e da TV, os ícones do século são preciosos sinais de tráfego para orientação da leitura. As reportagens assumem a estrutura romanesca e os personagens são apresentados de forma que o leitor perceba onde está o bem e o mal, quem é herói e quem é vilão, vítima ou algoz.

De uns tempos para cá, a mídia foi invadida pela figura do neonazi. Se um grupo de jovens, brancos e preferentemente europeus ou de origem européia, sai a fazer balbúrdias e agride imigrantes, negros ou árabes, está configurado o neonazismo. Podem até mesmo jamais ter ouvido falar de nazismo, Hitler ou Segunda Guerra. Mas são evidentes neonazis. Se o grupo de agressores é composto por negros, não são neonazis. Negro, por definição, não pode ser nazista.

Se não há agressão alguma, cria-se pelo menos atos criminosos por omissão. Foi o que aconteceu em Sebnitz, na Alemanha, em dezembro de 2000. O Estadão titulou com gosto:

MORTE DE CRIANÇA POR NEONAZISTAS ENVERGONHA ALEMANHA

Vamos à notícia:

Berlim — No dia seguinte à revelação do assassinato do garoto Joseph, de seis anos, do qual um grupo neonazista é o principal suspeito, surgiram vozes em toda a Alemanha pedindo justiça. Enquanto isso, no local do crime, o povoado de Sebnitz, na Saxônia, vivem-se momentos de vergonha após a cumplicidade silenciosa de seus habitantes. O jornal Bild denunciou a história de Joseph, filho de pai iraquiano e mãe alemã, que, perante a indiferença de 300 banhistas, foi espancado, torturado e afogado por um grupo de neonazistas em uma piscina pública. Na época, o caso foi encerrado como um acidente normal e, graças apenas à tenacidade da mãe da criança, a promotoria reabriu agora o caso. A história da morte do menino ocupou, hoje, a capa de todos os principais jornais do país e o Bild reproduziu, também na primeira página, uma fotografia do garoto morto, junto com a mãe.

Esta é a notícia. Mesmo fractal do episódio em Roterdã: filho de imigrante se afogando, uma multidão de banhistas assistindo. Se a notícia sai no ano 2000, é bom lembrar que o fato teria ocorrido em 1997. Detalhes novos: criança espancada, torturada e assassinada. Os banhistas, desta vez são trezentos. Este tipo de notícia tende a aumentar nos próximos anos. É fácil acusar uma multidão. Como ninguém é acusado individualmente, ninguém reclama. Mais difícil é acusar uma ou duas pessoas. Pode dar processo.

Vamos aos fatos, em tudo semelhantes ao episódio de Roterdã. No dia 13 de Junho de 1997, uma criança de 6 anos, Joseph Abdulla, morrera afogada numa piscina pública cheia de gente. Quando bombeiros e médicos chegaram, era tarde demais: o corpo boiava há dez minutos sem vida. A polícia fez um inquérito e concluiu que tudo foi um lamentável acidente. O caso foi arquivado e esquecido. Ocorre que a mãe, a farmacêutica Renate Kantelberg-Abdulla, se convenceu de que Joseph fora morto por neonazis por ser filho de um iraquiano. Os assassinos tê-lo-iam previamente drogado e depois lançado à água. Para comprovar esta tese, foi contratado um dos advogados mais conhecido da Alemanha, Rolf Bossi. Renate conseguiu também o testemunho de 23 pessoas, adultos e crianças, cujas versões levavam a pensar que poderia não se ter tratado de um acidente.

O Bild do dia 23 de novembro recoseu a matéria com o título

NEONAZIS AFOGAM CRIANÇA

Sebnitz passou para a primeira página da imprensa internacional e foi invadida pela televisão. A família teve de fugir para a Baviera e trancou-se em casa de familiares. Kurt Biedenkopf, o ministro presidente da Saxónia, foi a Sebnitz participar numa cerimônia religiosa em memória da «vítima». Edmund Stoiber, ministro presidente da Baviera, se disse horrorizado. «Não apetece viver num país onde uma criança de seis anos é assassinada por criminosos, por causa de motivos políticos, e onde ninguém mexe um dedo para impedir o crime», escreveu o jornal Tagesspiegel, de Berlim.

Soube-se depois que Renate dera dinheiro às 23 testemunhas para influenciar as suas versões. Uma das crianças interrogadas confessou ter dito “aquilo que a senhora queria ouvir, para ela me deixar voltar para casa». Tampouco foram confirmadas as ligações com grupos neonazis. O próprio Bossi, advogado de Renate, escrevera uma carta à sua cliente, duvidando da tese de uma conspiração racista e dizendo-lhe que ela «insistia em travar uma luta contra o resto do mundo».

O desmentido no Estadão veio alguns dias depois:

NEONAZISMO É DESCARTADO EM MORTE DE MENINO

Berlim — Autoridades da província alemã da Saxônia descartaram nesta quarta-feira a hipótese de um garoto de seis anos de idade, encontrado morto em uma piscina, em 1997, ter sido vítima de violência neonazista. (...) O chefe de gabinete civil da Saxônia informava nesta quarta-feira sobre a inexistência de evidências convincentes de que neonazistas foram responsáveis pela morte do garoto. (...)Promotores informaram ontem que nenhuma das testemunhas viu realmente como Joseph morreu. A principal testemunha tinha apenas 12 anos quando ocorreu o incidente, em junho de 1997.

Ou seja: não havia criança alguma sendo morta por neonazistas, nem a Alemanha tinha porque se envergonhar de coisa alguma. Enquanto isso, Sebnitz, mais a Alemanha toda — e por extensão a Europa — foram difamadas, como geografias onde grupos neonazistas afogam filhos de imigrantes, como lazer.

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* Estes episódios – e outros – você encontra em meu ensaio Como ler jornais, que pode ser baixado gratuitamente de http://www.ebooksbrasil.org.