¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, fevereiro 15, 2009
 
Pausa para pau na Igreja:
CARDEAL-ARCEBISPO OMITE
BENEFACTOR DO VATICANO



Em celebração aos 80 anos de existência do Vaticano, Dom Odilo P. Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, escreveu ontem no Estadão:

No dia 11 de fevereiro de 1929, sendo o papa Pio XI e o rei da Itália, Vítor Manuel III, chegou-se à solução concordada do Tratado de Latrão, que deu origem ao Estado do Vaticano na sua configuração atual e estabeleceu os parâmetros da convivência com o Estado Italiano.

Trata-se de um Estado sui generis, cuja pretensão ao reconhecimento no concerto político internacional não se relaciona com um eventual poder econômico nem com uma força militar, que não possui.

Sua importância decorre da sua autoridade moral, enquanto representa uma instituição milenar dedicada à defesa da dignidade humana, da justiça e da paz na convivência entre os povos. Essa autoridade é bem reconhecida e prestigiada pelas representações diplomáticas (Nunciaturas e Delegações Apostólicas) presentes em mais de 190 países e pelos representantes ou observadores que mantém em cerca de 20 Organismos Governamentais Internacionais, que vão desde a Organização das Nações Unidas (ONU) até a Organização da Liga dos Estados Árabes.


O que Dom Odilo não conta é que a concordata de 29 foi assinada entre Pio XI e Benito Mussolini. Os termos do tratado de reconciliação (La Conciliazione) renderam à Igreja uma enorme quantia de dinheiro, isenção de impostos e um papel constitucional que levou a uma importante e contínua influência moral sobre a futura legislação de questões sociais, tais como educação e divórcio. Estes eram os três pontos chaves da Concordata:

1) o Estado Fascista reconhecia a autonomia da hierarquia eclesiástica como uma sociedade auto-regulada e privilegiada dentro da sociedade nacional;
2) transferia do Estado para a Igreja o controle dos casamentos entre católicos;
3) Impunha o ensino obrigatório da doutrina católica em todos os centros de ensino secundários e nas escolas elementares.

De inhapa, o Vaticano foi beneficiado com 750 milhões de liras a título de indenização pela perda dos estados pontifícios, ocorrida em 1861-62, bem como teve direito a usufruir de títulos de renda correspondentes a um bilhão de liras ao interesse de 5%.

Quem visita Roma, hoje, ao passar pela Via della Conciliazione, estará testemunhando a destruição de uma parte particularmente pitoresca do burgo medieval. Em comemoração ao acordo histórico com Pio XII, Mussolini destruiu boa parte da Roma antiga, para ter acesso mais “moderno” à basílica de São Pedro.

O ditador é visto pelo papa como o “homem da Providência”, e Pio XI lhe concede a Ordem da Espora de Ouro, que é a mais alta distinção concedida pelo Estado do Vaticano. De Mussolini, disse o papa: "Il più grande uomo da me conosciuto, e senz’altro tra i più profondamente buoni (Me foi dado a conhecer um grande homem sem reparos e profundamente bom)".

Na ocasião, Sua Santidade aproveita o azo para tentar resolver uma velha pendenga da Santa Sé, que não gosta nem um pouquinho da estátua de Giordano Bruno, erigida em 1889 em Campo dei Fiori. Pede ao novo aliado que a derrube. Mussolini, que tem um filho com o nome de Bruno, toma a defesa do pensador e declara, com todas as letras, à Câmara dos Deputados, que “a estátua de Giordano Bruno, melancólica como o destino desse monge, ficará onde ela está. Tenho a impressão que seria se encarniçar contra esse filósofo que, se equivocado e persistiu no erro, no entanto já pagou”. Em represália, a Igreja canoniza então Roberto Bellarmino, o acusador de G. Bruno, nomeando-o “Doutor da Igreja”.

Ao celebrar a magna data, Dom Odilo P. Scherer nos omite estes saborosos detalhes, que tornam mais emocionante a trajetória da nau de Pedro no mar da História. Para quem gosta de imagens, cá estão as celebrações da assinatura do tratado:
http://ingoldwetrustt.blogspot.com/2008/09/vaticano-e-mussolini-1929.html