¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, fevereiro 10, 2009
 
PRECONCEITO CONTRA KULINAS


A palavra antropofagia foi cunhada no século V A.C., pelo historiador grego Heródoto, como uma fusão de antropos (homem) e phagein (comer). Já o termo canibal, segundo os historiadores, surge no século XVI. Cristóvão Colombo, ao passar pelas Pequenas Antilhas, conhecidas hoje como Caribe, encontrou índios que tinham o hábito de comer carne humana em rituais religiosos e se designavam “cariba”, adjetivo que significava bravo, “corajoso”. Um erro de pronúncia dos europeus criou a palavra “caniba”, que rapidamente passou a descrever toda e qualquer cultura, invariavelmente inferior, que consumisse indivíduos da mesma espécie.

Segundo Nahlah Saimeh, médica especialista em medicina legal e diretora do Centro de Psiquiatria Forense da Vestfália, Alemanha, “os hábitos dos índios caribenhos espantaram os colonizadores espanhóis, mas nada que se compare ao que eles viram quando chegaram ao antigo México. Ao entrar em território asteca, a expedição do conquistador Hernán Cortez encontrou corpos semidevorados espalhados ao longo de estradas e homens enjaulados aguardando serem consumidos. Durante a conquista daquelas terras, Cortez testemunhou muitos de seus homens serem capturados, sacrificados e devorados.

“O primeiro relato objetivo de canibalismo foi feito no Brasil pelo navegador alemão Hans Staden. Depois de naufragar na costa brasileira, Staden foi capturado por uma tribo tupinambá, na qual presenciou diversos rituais canibais. De volta à Europa, descreveu a experiência no livro Duas viagens ao Brasil (Edusp, 1974). Em uma das histórias, Staden conta que as crianças para as quais ele ensinava música acabaram assassinadas e usadas numa sopa que ele consumiu sem saber dos ingredientes. O alemão só se deu conta do que havia ocorrido quando viu, no fundo do caldeirão, os pequenos crânios”.

Em 16 de junho de 1556, os caetés honraram as antigas tradições, devorando o primeiro bispo do Brasil, dom Pedro Fernandes de Sardinha, e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. Historiadores divergem. Há quem considere que Sardinha – de tão saboroso nome – tenha sido devorado pelos tupinambás, em Sergipe.

Caribas ou astecas, caetés ou tupinambás, o hábito do canibalismo foi adotado pela Igreja Católica, desde os seus primórdios e tomou o nome de transubstanciação. Desde há muito venho explicando que na santa missa come-se a carne de Cristo e não um símbolo da carne de Cristo. Bebe-se o sangue de Cristo e não um símbolo do sangue de Cristo. E quem nisto não crer é herege. Vamos aos textos do magistério da Santa Madre. O dogma da transubstanciação, se foi aventado no concílio de Latrão (1215), só toma corpo no concílio de Trento (1551). Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, no capítulo 1 § 15, lemos: “Pela consagração do pão e do vinho se opera a transformação de toda substância do pão na substância do corpo do Cristo nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue; esta transformação, a Igreja católica a chamou justa e exatamente de transubstanciação”.

Que mais não seja, o cânon 1° da 13ª sessão do concílio assim proclama:

“Se alguém nega que o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, com sua Alma, e a Divindade, e conseqüentemente Jesus Cristo todo inteiro, estão contidos verdadeiramente, realmente, e substancialmente no Sacramento da Muito Santa Eucaristia; mas diz que eles lá estão somente como em símbolo, ou ainda em forma, ou em virtude: seja anátema.” Ou seja, fogueira para quem acreditar que está ingerindo um símbolo da carne e do sangue e não a própria e o próprio sangue.

Leio hoje na Folha Online que índios são acusados de comer uma pessoa no Amazonas. Segundo o noticiário, índios da etnia Kulina são suspeitos de esquartejar e comer os restos de um jovem em um ritual de canibalismo na cidade de Envira (AM), próxima à fronteira com o Peru. Em entrevista à rede de TV CNN, o policial Maronilton da Silva Clementino afirmou que ao menos cinco índios estão foragidos.

A vítima foi identificada como Océlio Alves de Carvalho, 19, morto na semana passada. De acordo com a CNN, os quatro índios fugiram após passarem algumas horas detidos. Pela lei, a polícia não pode entrar na tribo para investigar o caso. Clementino afirmou que a vítima, que conhecia a tribo, havia sido convidado para visitar a aldeia indígena na sexta-feira passada. "Eles se conheciam e às vezes eles se ajudavam. Os índios o convidaram para a reserva na sexta-feira e ele [Océlio Carvalho] não foi mais visto. A família decidiu entrar na reserva para procurar o jovem e encontrou o corpo dele esquartejado e a cabeça pendurada em uma árvore", contou o policial.

A notícia me espanta. Por que deter índios só porque se dedicaram à prática de tradições ancestrais? FUNAI, CIMI, antropólogos e outros óologos aceitam perfeitamente que indígenas enterrem crianças vivas, em nome de suas tradições milenares. Autoridade alguma no Brasil pune tais práticas, que são de conhecimento público. Por que impedir os coitados dos kulinas de voltar às práticas de seus ancestrais? Sinto cheiro de discriminação. Será que só ianomâmis, tapirapés, madihas, kamaiurás, amalés e kamirus podem preservar antigos hábitos, como enterrar criancinhas vivas? Por que não podem os kulinas, que obedecem a práticas ainda mais antigas?

Sem falar que preservam uma tradição católica, que se repete todos os dias, em quase todas as cidades e rincões do mundo. Puro preconceito.