¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, fevereiro 06, 2009
 
RESPOSTA AO MARC


Meu caro Marc:

Há mais de 35 anos, escrevi artigo na Zero Hora, de Porto Alegre, intitulado “O Direito a Paris”. Nele, defendia a idéia de que o direito de todo ser humano visitar Paris deveria ser um dos itens da Declaração dos Direitos Humanos. O texto foi muito elogiado e fui visto como um jovem e lúcido jornalista. O que só prova que um jovem, irremediavelmente, mais dia menos dia, acaba escrevendo besteira. Hoje, defendo tese contrária: à maioria dos seres humanos deveria ser proibida a entrada em Paris.

A Paris – ou a Roma ou a Madri – só deveriam ter acesso aqueles que têm sensibilidade suficiente para apreciar as boas coisas da vida, desde a arte, história, literatura, arquitetura, gastronomia. Conheci de perto brasileiros que, mal chegados a Paris, querem descobrir um restaurante onde se possa comer uma boa feijoadinha. Este turista deveria ser repatriado incontinenti. Há aqueles que não falam francês – e nem mesmo inglês – e se julgam no direito de falar português em qualquer loja ou restaurante. Tive certa vez em minha mesa uma senhora que pedia ao garçom: “Eu quero galinha”. Como o garçom não entendia, escandiu lentamente as sílabas: “Eu-que-ro-ga-li-nha”. Juro que vi. Esta deveria ser lançada às oubliettes que ainda restam às margens do Sena. Oubliettes eram cubículos escuros escavados na rocha de castelos e fortalezas, onde os prisioneiros eram esquecidos (oubliés, daí oubliettes) e não tinham vocação alguma para dali sair vivos.

Há multidões de turistas – e não só brasileiros – correndo desesperados, como formigas antes de um temporal, para tirar rapidamente uma foto em frente à Torre Eiffel, ao Arco do Triunfo, ao Louvre, ao Pompidou, enfim, posando ao lado de cada ícone de Paris, ou de outras cidades. Os ângulos para fotos são disputados ombro a ombro. A correria é grande e não permite sequer curtir com vagar um bom restaurante. Fazem Paris em dois dias, Roma em três, Bruxelas e Amsterdã num dia só, acabam visitando 10 países em quinze dias e voltam orgulhosos: “eu conheci a Europa”. As fotos da viagem constituirão uma prova de que lá estiveram e só servem para aborrecer amigos e parentes.

Vou discordar apenas em algo de tua mensagem, Marc. Em Paris ou Madri não me sinto turista, mas quase residente. Sem pertencer a este espécime abominável de turista, volto quase sempre aos mesmos restaurantes. São restaurantes que escolhi a dedo nos anos que lá vivi e que me fazem falta. Pior ainda: como sou de pouco comer, geralmente não janto. Para conseguir freqüentar dois por dia – e assim mesmo ficam faltando restaurantes a visitar - tenho de enfrentar o sacrifício de comer duas vezes por dia. Quando o restaurante permite apenas beliscar, me restrinjo então a algumas tapas e um bom vinho. Ou seja, não me sobra tempo para descobrir outras casas. Não consigo sequer completar o tour daquelas que adoro. Viena, então, é um desastre. Seria preciso no mínimo um mês para passar pelo menos uma vez em cada um daqueles cafés divinos.

Assisti a cenas horripilantes em minhas viagens. Em Madri, vi um grupo de uns trinta japoneses, entrando entusiasticamente... em um restaurante japonês. Como pode uma excursão partir das antípodas para comer exatamente a mesma comida que comem em casa? Vi grupo de brasileiros, todos de verde e amarelo ou enrolados na bandeira nacional, desfilando pelas ruas de Roma, como se algum orgulho houvesse em portar a bandeira de um país que elegeu e reelegeu como presidente um analfabeto. Vi milhares de pessoas em Bruxelas, rumando em grupos para tirar uma foto junto aquele bonequinho ridículo, o Manneken Pis. Vi gente se perguntando, na Plaza España, em Madri, diante da estátua do Quixote e do Sancho: “quem são aqueles dois?” Isso sem falar naqueles que querem ver a Bastilha, em Paris. “Mais Monsieur, nous l’avons tombée dépuis belle lurette”, ouvi uma verdureira, espantada, responder. “Senhor, nós a derrubamos já faz muito tempo”.

Isso sem falar nas multidões que irrompem nos grandes magazines, para comprar perfumes e lingerie. Como se Paris se resumisse a perfumes e lingerie. Se você encontrar em uma fila de aeroporto um casal com um carrinho com quatro ou cinco malas imensas, pode apostar: são brasileiros. Turista inteligente viaja com pouca bagagem. Mais ainda: se você vir alguém em uma loja, tentando pagar suas compras em dólares, pode apostar: são brasileiros. Acostumados a viver num país que mendiga dólares, não entendem que estão em país que se orgulha de sua própria moeda.

A esta gente, a Europa deveria ser proibida. Deveriam ficar aqui no Brasil mesmo, discutindo futebol e as novelas da Globo.