¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, fevereiro 05, 2009
 
SEXO ANAL DERRUBA CAPITAL


Neste incrível país nosso, é perigoso fazer piada. Quando pensamos que estamos fazendo piada, não é piada não, é realidade. Em junho de 2004, eu escrevia, comentando o casamento entre homossexuais: Mais um pouco e estarão exigindo fidelidade do parceiro. Muito em breve, teremos tédio conjugal e divórcio, males que antes não afetavam os homos. Em vez de fugir ao modelo que está se revelando inadequado ao mundo contemporâneo, os gays nele buscam proteção. Como se núpcias de véu e grinalda os redimissem de um hipotético pecado original. O que um dia foi transgressão e libertação, está virando instituição. Homossexualismo está perdendo a graça. Mais um pouco, os homos - da mesma forma que os negros - estarão exigindo cotas na universidade.

O que para mim era piada, para Luís Mott, Secretário de Direitos Humanos do Grupo Gay da Bahia, virou projeto. Ele defende a introdução de cotas para homossexuais na universidade.

Preciso tomar mais cuidado ao fazer piadas. Nas últimas crônicas, falei sobre a necessidade de fornecer gel lubrificante aos participantes do Fórum Social em Belém. Minha intenção era dupla. Primeiro, ridicularizar um encontro onde se pretende encontrar a fórmula de um mundo melhor, desde que o Estado forneça 600 mil preservativos aos árdegos militantes. Segundo, evidenciar o absurdo de um ministério da Saúde, que despende 1.160.000 de reais na aquisição de 15 milhões de sachês de gel lubrificante, para tornar mais confortável o relacionamento anal, em um país onde faltam leitos e aparelhos nos hospitais, faltam medicamentos nas farmácias populares e pessoas morrem nas filas do SUS antes de serem atendidas. Em país decente, há muito o senhor José Gomes Temporão teria limpado suas gavetas no ministério.

Eis senão quando recebo esse mail de Porto Alegre:

Caro:

com relação ao teu artigo sobre gel lubrificante, na última edição do FSM em Porto Alegre (até deves te lembrar), conforme noticiado por várias fontes, houve o dia em que um grupo marchou pelado entoando o grito de guerra: "Sexo anal derruba o capital!”
"Criança, não verás...".
Abraços.
Marco Loss


Confesso que esta eu desconhecia. Provavelmente não estava no país quando o insólito aconteceu. Com esta intrepidez da brava gauchada Marx não contava. Vai ver que se empunhasse esta bandeira, ao invés da anódina palavra de ordem “Proletários de todo mundo, uni-vos!”, o marxismo teria maior sobrevida. Só para conferir, fui dar uma olhadela na rede. Só no Google, encontro 3.610 ocorrências. Por exemplo:

O Fórum Social Mundial começou em passeata pelas ruas de Porto Alegre. Mais de 200 mil pessoas. Vieram para Porto Alegre cerca de 120 mil pessoas. Todos querendo “a construção de um outro modelo de globalização”. Números expressivos e ambições desmedidas. Feira de ilusões..

A esquerda marxista marcou presença: “Marcha anticapitalista!”. Não foi hegemônica. A esquerda petista fez mais barulho: “Fora, fora daqui, Palocci, Meirelles e o FMI!”. Feministas de todas as tradições: “A nossa luta é por respeito. Mulher não é só bunda e peito”. Todas as tribos reunidas. Os gays saltitantes: “O sexo anal derruba o capital!”. Militantes petistas de todas as tendências estiveram desfilando bandeiras vermelhas à beira do Guaíba...


Esta luta renhida por um mundo melhor resultou em uma dissertação de mestrado em Antropologia Social defendida na Unicamp, em 2002, o livro Sopa de Letrinhas - Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90, de Regina Facchini, que reconstitui a trajetória do movimento homossexual no Brasil, sobretudo de meados dos anos 80, buscando situar este movimento no interior das abordagens teóricas sobre movimentos sociais e terceiro setor. A obra foi lançada pelo CLAM e pela Editora Garamond, em São Paulo, na mesma semana da 9ª Parada do Orgulho GLBT, evento que levou mais de dois milhões de pessoas à Avenida Paulista. Em entrevista publicada na rede, a autora fala de lutas e conquistas do movimento e da importância das paradas para a visibilidade homossexual.

Os grupos mais influentes no período se apresentavam como grupos de afirmação homossexual ou de ação em favor dos homossexuais. Nas passeatas era possível ouvir palavras de ordem como “o sexo anal derruba o capital”.

Eu pensava que fosse piada. Não era. Ora, que tem o dito com o capital? Na ânsia de criar um slogan de fácil memorização, as doidivanas se enganaram rotundamente. Sexo anal só favorece o capital. O movimento tomou tais proporções no mundo, que hoje movimenta desde redes hoteleiras, agências de turismo, cruzeiros, sistemas de transporte, vôos fretados, restauração, turismo especializado, até a indústria da indumentária, particularmente do couro. Os Estados Unidos, pragmáticos como todo país capitalista, há muito descobriram este mercado fabuloso e nele investem fortunas. Os homossexuais são em geral solteiros, têm alto padrão econômico e não têm filhos nem mulher a sustentar. Ou seja, constituem excelente alvo para a indústria do lazer.

Não era pois, de todo descabida, minha proposta de fornecer gel lubrificante a esta brava moçada que luta por um mundo melhor, livre das imposições do capital. A causa pode ser errada. Mas o propósito dos jovens era sublime. O que me lembra frase do genial Roberto Arlt, escritor argentino que gosto de citar:

- A revolução, a faremos com os jovens. São estúpidos e entusiastas.