¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, março 11, 2009
 
ABAIXO BABEL!


Segundo o Atlas de las lenguas en peligro en el mundo, a cargo de uma equipe de 20 lingüistas dirigidos pelo australiano Christopher Moseley, existem hoje no mundo 6.700 línguas, e metade delas corre o risco de desaparecer antes do fim do ano. O Atlas, apresentado recentemente em Paris pela UNESCO, revela que desapareceram recentemente 2.500 idiomas, entre eles o “manês” da ilha britânica de Man, extinto em 1974 com a morte de Ned Maddrell, seu último falante; o “assaax”, da Tanzânia, extinto en 1976; o “ubyh”, da Turquia, desaparecido en 1992 com a morte de Tefviic Esenc e o “eyak” do Alaska, extinto em 2008 com a morte de Martle Smith Jones.

O Atlas expõe outras curiosidades, por exemplo, que um total de 199 idiomas contam com menos de dez falantes e 176 outros têm um número de falantes compreendido entre dez e cinqüenta. Segundo a Unesco, as guerras e as migrações fizeram com mais de 200 idiomas se extinguissem nas três últimas gerações. Nada menos que 538 línguas estão em “situação crítica”, 502 “seriamente em perigo” e 607 “em situação vulnerável”, conforme a classificação da UNESCO de distintos graus de vitalidade.

Juventude é a época de proferir bobagens. Jovem tendo sido, claro que proferi as minhas. Na época, eu considerava que quando uma língua morria, a humanidade se tornava mais pobre. A frase, que provavelmente li em algum lugar, era bonita e cheia de efeito. Mas, cá entre nós, para que queremos línguas faladas por dez ou cinqüenta pessoas? Existirão professores nessas comunidades minúsculas para a transmissão de tais línguas? Porque despender esforços no aprendizado, já não digo de uma língua, mas de um código secreto por poucos partilhado, quando tais esforços poderiam ser encaminhados a uma língua cujos falantes possam se comunicar com o mundo? Que perde a humanidade com a morte do manês, do assaax, do ubyh ou do eyak?

Para que servem essas línguas faladas por um só falante, além de monólogos? Se um homem falando sozinho uma língua de cultura já é um tanto ridículo, que qualificativo podemos atribuir a quem fala uma língua que só ele entende? Estamos à margem da insanidade. Verdade que, nestes dias, há jovens criando línguas para consumo próprio. Como exercício intelectual, passa. Mas só serve para anotações secretas de algum diário, nada mais. Que literatura, que ciência, que saber, pode produzir uma língua falada por um punhado de gatos pingados?

A UNESCO faz um chamado especial frente a esta situação. “Este processo só pode ser freado se os governos e as comunidades falantes tomam medidas urgentes”. Considera ainda que se as línguas são instrumentos primordiais das expressões culturais do ser humano, a tarefa de salvaguardar as línguas em perigo de desaparição seja crucial para a manutenção da diversidade cultural no mundo.

Como salvar uma língua de um, dez ou cinqüenta falantes? Impondo-a a currículos de alunos que jamais precisarão delas? Baixando decreto promovendo a língua moribunda a idioma nacional? Os desocupados da Unesco que me desculpem, esta causa é perdida. Se as civilizações morrem, por que não morreriam as línguas? A causa pode servir para a organização de congressos, colóquios e mordomias outras, que rendem a especialistas do nada viagens de turismo, hospedagens em bons hotéis e excelente restauração. Pois para isso serve a maioria dos congressos e colóquios nestes tempos de Internet.

Segundo o Atlas, paradoxalmente, as regiões ou países onde há maior diversidade lingüística, como a Melanésia, a África subsahariana, a América do Sul, a China e a Indonésia, são aquelas onde há mais tendência à desaparição dos idiomas. O curioso é que os autores do Atlas não chegam à conclusão que salta aos olhos: quanto mais línguas têm um país, mais subdesenvolvido é. Você não encontra país desenvolvido que fale mais de três ou quatro línguas. Segundo antropólogos, na época do descobrimento, falava-se no Brasil cerca de 1.078 línguas indígenas. A cifra é tão suspeita como aquela que pretende existirem na época cinco milhões de índios. Que recursos tinham na época aqueles gatos pingados portugueses para levar a termo estes recenseamentos?

Devido à política linguística do Estado português e em seguida do brasileiro - continuam os defensores da diversidade de línguas - de reduzir o número de línguas por meio do deslocamento lingüístico, isto é, de sua substituição pela língua portuguesa, a maior parte dessas línguas desapareceu ou está em vias de extinguir-se.

Ora, é graças a esta uniformidade lingüistica que finalmente surgiu um país. Que, bem ou mal, existe como nação. Imagine um país onde se falam mais de mil línguas. A comunicação entre todos os cidadãos se torna inviável. Estes mesmo antrópologos pretendem que, hoje, no Brasil, sejam faladas mais de cem línguas. Grossa bobagem. No Brasil fala-se uma língua. E uma boa centena de códigos secretos, se quisermos.

O relatório cita como exceção o guarani no Paraguai. Uma vez incorporado à Constituição Paraguaia, o número de falantes passou de 3,6 milhões em 1992 para 4,4 milhões, dez anos mais tarde. O exemplo não procede: 3,6 milhões de falantes não é o mesmo que dez ou cinqüenta falantes. Além do mais, o Paraguai mal tem seis milhões de habitantes. Ou seja, uma boa metade do país já falava a língua indígena.

Há muito deixei de ser jovem. Considero hoje que língua é um idioma que tem atrás de si um Exército, Força Aérea e Marinha. Se não tiver, não é língua. É dialeto. Bascos, catalães, ocitanos, napolitanos, sicilianos que me desculpem. Morte à essas línguas inúteis, inoperantes! Que sobrevivam as mais fortes, que produziram melhor cultura! Se o planetinha ficasse reduzido a umas quinhentas ou seiscentas línguas, as comunicações seriam bem menos complicadas.