¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quinta-feira, março 05, 2009
 
FRANCESES REAGEM E
CONVIDAM AO CÂNCER



Comentei mês passado um estudo publicado pelo Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), que relacionava diretamente o câncer ao álcool. A pesquisa chegava a conclusões radicais. Na referência álcool-câncer não existiria "dose protetora". Com seus efeitos invisíveis, as pequenas e repetidas doses seriam as mais nocivas.

O estudo apontava para uma das mais tradicionais práticas da Gália e desaconselhava o todo consumo diário de vinho. Ia ainda mais longe: "o consumo de bebidas alcoólicas está associado a um aumento do risco de se sofrer câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, cólon e reto, mama e fígado". O risco aumenta 9%, no caso de câncer de cólon e reto, se for consumida uma taça ao dia. Esse risco chegaria inclusive a 168% para os cânceres de boca, faringe e laringe.

Você consegue imaginar um francês sem, não digo uma taça, mas meia jarra de vinho no almoço? Eu não consigo. Na ocasião, lavrei meu protesto. Se o estudo tivesse fundamento, mais da metade da França, Espanha, Itália e Portugal já teriam sido dizimadas pelo câncer.

Os vinicultores franceses, pelo que li, nada disseram contra o documento do Inca. Mas reagiram a seu modo. Leio hoje que a França está lançando um órgão para promover o enoturismo. Promover a visita a vinícolas seria parte de um plano de cinco anos, para modernizar a indústria de vinhos francesa e fazer que ela fique mais competitiva no mercado mundial.

Confesso que esse tipo de turismo, apesar de simpático, não me agrada. Já visitei algumas caves na França e não achei muita graça em degustar vinhos, geralmente em pé, junto a um bando de turistas. Vinho é algo que se consome entre amigos. Não costumo beber com desconhecidos. Isso de visitar vinícolas é prática do turismo de massa, e desse turismo sempre fugi. Não será uma visita a uma cave que me fará apreciar vinhos mais do que aprecio. De vinhos, gosto nos restaurantes, preferentemente com muita gente alegre à minha volta.

Nos últimos quinze ou vinte anos, tenho viajado exclusivamente para visitar cafés e restaurantes. Sempre curto, é claro, a arquitetura das cidades, seus logradouros e, fora bares, visito algumas livrarias. Mas o objetivo da viagem é um só: sair de um café ou restaurante e ir a outro café ou restaurante. O leitor desavisado dirá que sou um alcoólatra. Nada disso. É que adoro aqueles cafés, particularmente quando decorados com mármores ou madeiras. São ambientes que não encontro aqui. Se falar que tenho o hábito de ler em bares. Nos últimos três anos, fui a Bruxelas com um único objetivo: passar alguma horas num café que adoro, o Metropole. Feita esta visita, posso voltar.

Quando admito a médicos que bebo – e a perguntinha é inevitável – faço uma longa introdução. Para mim, beber não é só beber. O ambiente há de ser agradável, a mesa deve ter toalhas, pelo menos quando a bebida for vinho, e preferentemente há de ser de madeira. Chope, topo até em mesa de plástico, embora as deteste. Vinho, jamais. Aqui em São Paulo, aos sábados e domingos freqüento um boteco simpático, mas cujas cadeiras e mesas são de plástico. Nele, só tomo alguma caipira ou chope introdutórios. Para o vinho, me desloco para algum local decente.

O que me agrada na bebida, além de suas qualidades organolépticas, é o entourage. As taças hão de ser no mínimo de vidro, como também a garrafa. Parece ser redundante dizer isto, mas tenho notícias que já existem vinhos embalados em tetrapaks, com uma torneirinha. Nutro profunda lástima pelo pobre diabo capaz de consumir esta excrescência. Conta também a elegância das taças, a cor da bebida, a pessoa com quem se está. Beber sozinho não é exatamente um desprazer. Mas acompanhado sempre é melhor. Religiosos e moralistas dirão que estas sofisticações são recursos que o demo usa para tentar os mortais.

Que seja! Ou bebo em bom ambiente, ou não bebo. Esta é uma das coisas que abomino no Estados Unidos. Beber no bico da garrafa, para mim, é o cúmulo da barbárie. Copos de plástico, também. O francês é preciso: pede-se un verre. Que quer dizer copo, ou mesmo taça, mas já especifica o material: vidro. Amigos me falam que já existe na França o “verre en plastique”, uma aporia conceitual. A barbárie ianque já deve estar chegando por aquelas plagas. Nos dias em que andei em Nova York, quase virei sóbrio. Eu anotava no mapa os bares onde poderia beber em copos de vidro. Se os copos eram de plástico, nem entrava.

Me desviei um bocado. Em suma, queria dizer que não acho graça alguma em visitar uma cave, cercado por uma malta de turistas. Em todo caso, a reação dos franceses é oportuna. A proceder o estudo do INCA, a França está nos convidando para degustar câncer.

Sórdidos, os gauleses. Amém!