¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, março 03, 2009
 
HOSANAS À SIEMENS NAS ALTURAS!


No hospital Sírio-Libanês, onde estou sendo cuidado, também está se tratando uma atriz chamada Mara Mazan. Pelo que me dizem os jornais, ela tem algum papel numa novela chamada Caminho das Índias. Sei disto porque li a notícia em algum site, já que não tenho conhecimento algum da tal novela e muito menos da atriz. O que me chamou a atenção, no caso, foram as declarações sobre sua doença. Após completar um ano de sua operação, na qual retirou um tumor maligno do pulmão direito, a moça continua fazendo sessões de quimioterapia a cada 21 dias.

Mas o tratamento no Sírio-Libanês, pelo que diz a atriz, de pouco ou nada lhe serve ou serviu. "Fui curada somente com oração. O nódulo desapareceu do meu peito", afirmou. Sua cura, Mazan atribui a Deus. "Não tenho nenhuma religião, mas sou fiel a ele, pois resolveu me dar uma segunda chance para continuar me divertindo com meus amigos aqui na Terra."

A atriz foi curada, não pela excelência tecnológica do hospital, nem pela competência de seus médicos e técnicos, e sim por uma entidade espiritual, encarnada por um tal de Edson de Queiroz, através de um uma cirurgia espiritual. Ao ser interrogada por que optou por este método e não pelo convencional, diz a atriz:

- Antes de eu tirar o tumor de meu pulmão, eu já havia sido operada espiritualmente pelo Doutor Fritz (incorporado por Edson Queiroz), indicado pela minha amiga e cantora Alcione. Os tumores que existiam em meu pulmão diminuíram consideravelmente e, quando a equipe do médico Riad Yunis fez a retirada do tumor maligno, não houve nenhum tipo de complicação. (...) Foi uma coisa surreal, mas muito bacana. O meu tratamento foi inteiramente realizado na base da oração. Fiquei sentada em uma cadeira e começaram a rezar. Logo eu comecei a sentir meu corpo dormente, como se tivesse sido anestesiada. Entrei em alfa e depois vomitei um líquido verde, parecendo a personagem Sarah, de O Exorcista.

O repórter quer saber se houve alguma intervenção cirúrgica. O médium chegou a usar algum instrumento para fazer a operação?

- Ele não usou absolutamente nada. Antes de eu entrar neste sono profundo, foi colocada em meu seio uma gaze umedecida com água purificada espiritualmente. Nada além disso. Eles ficaram rezando por horas e quando acordei o nódulo não existia mais.

Então resta a pergunta: por que retirou o tumor com uma equipe do hospital e por que continua fazendo quimioterapia? Estou cansado desta malta de crentes, que diante de uma doença grave, reza e se encomenda a Deus, ao mesmo tempo em que busca medicina de ponta. Se não conseguem sobreviver, seus próximos atribuem a morte à medicina. Se se salvam, a vida é atribuída a Deus.

Conheço não poucos destes espécimes. Que uma atriz inculta da rede Globo profira tais sandices, até que se entende. Mas já as ouvi de universitários que, por exigências profissionais, deveriam ser pessoas cultas. Inclusive uma médica, boa amiga minha, assistiu certa vez uma das cirurgias do Dr. Fritz, cujo espírito teria baixado em um notório vigarista, Zé Arigó. Ele teria passado a mão na barriga de um crente, feito um corte do qual saía sangue, e voltou com a mão cheia de fragmentos semelhantes a vísceras. Depois, passou a mão de novo na barriga, e o local ficou limpo, como se nem tivesse sido cortado. Ela acreditou piamente no que vira. Isto é, num truque barato de prestigitador. Arigó levava escondidas na mão vísceras de galinha, riscava a barriga com sangue, empurrava a mão e voltava com o "mal" extraído do paciente. Claro que não fica nenhum corte, pois não houve corte algum.

Uma das mais lindas de minhas vizinhas me trouxe água de uma fonte milagrosa, não lembro se de Lourdes ou de Fátima. Tomei, água não faz mal. Além do mais, presente de moça bonita a gente não desdenha. Estava até me perguntando se me tratava em hospital ou se esperava pelo efeito da água. Agora, vivo uma dúvida atroz: terá sido realmente o Sírio-Libanês que me curou? Ou quem sabe a água da moça?

Quando damos entrada em um hospital, há sempre duas perguntinhas no formulário de admissão: você tem religião? Qual? Acho que faltam mais algumas. Você crê no poder de Deus para curar doenças? Acredita em cirurgia espiritual? Se a resposta fosse sim a estas duas perguntas, eu mandaria incontinenti o crente entregar-se a Deus e à cirurgia espiritual. Se Deus cura, pra que hospital e boa medicina? É redundante e só faz sofrer. Se você vai usar de toda nossa ciência para depois atribuir a cura ao Dr. Fritz, então consulte logo o Dr. Fritz e não perca tempo conosco.

Considero profundamente ofensivo à medicina ser curado por médicos dedicados e alta tecnologia e atribuir a cura a Deus. Aconteceu com minha mulher. Quando adoeceu, círculos de oração foram organizados no país todo. Deus a curará – diziam. “Estamos gastando nossos créditos junto ao Poderoso” – disse-me um casal católico. Ninguém mencionava o tratamento sofisticado, caro e doloroso, ao qual ela estava sendo submetida. Quando morreu, mudou o papo. A medicina falhou. Deus tinha outros planos para ela. Mas agora ela finalmente está sendo feliz.

Se morrer era ser feliz, por que não rezavam então para que morresse logo, e assim atingisse mais depressa o estado de felicidade? Aconteceu agora comigo. Cá e lá, amigas me telefonavam: “sei que não acreditas nisso, mas vou rezar por ti”. Que rezem, então. É um gesto simpático, que denota afeto e além do mais não posso proibir ninguém de rezar. Quando anunciei minha cura, não deu outra:

- Graças a Deus! – exclamaram minhas boas amigas rezadeiras.

Graças a deus, um catzo! Graças à medicina de ponta e à excelência do corpo médico – e também dos físicos - do Sírio-Libanês. Além da competência, fui tratado com um carinho como se eu fosse, não um cliente, mas um amigo de todos. E graças, muito especialmente, à Siemens e à sua metodologia IMRT - Intensity Modulated Radiotherapy - Radioterapia com Intensidade Modulada, uma tecnologia avançada de radioterapia. O aparelhinho, um acelerador linear de última geração, que custa um milhão de dólares – mais outro milhão pelas instalações e softwares – cura determinados cânceres com mais eficiência e menores danos que as técnicas anteriores. O leitor poderá ver o instrumento aqui:
http://www.siemens.com.br/templates/coluna1.aspx?channel=2124

Quem atribui a Deus sua cura, após ter sido tratado em hospitais de excelência, deveria ter seu nome posto numa lista negra e jamais ser aceito em hospital algum. Que apele a Deus, ao Dr. Fritz, ao Queiroz. Mas que não ofenda o esforço continuado dos cientistas em desenvolver cada vez melhores instrumentos de cura.