¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, março 13, 2009
 
JOÃO CARLOS BARBOSA,
INSUSPEITO PRECURSOR



Não sou chegado a vinhos rosés. Champanhe rosé, tudo bem. Vinho, nunca. Aliás, não sou adepto nem dos brancos. Sempre entendi, no entanto, que os rosés tinham uma elaboração especial e dependiam de certas uvas.

Hoje, além da guerra contra o álcool na Europa, uma nova discussão está tomando corpo no continente. Pode-se misturar tinto e branco para fazer rosé? Segundo o Libération, a Comissão de Bruxelas respondeu sim. Quanto à França, ainda hesita. Em janeiro passado, em Bruxelas, a França aprovou com seus homólogos dos Vinte-e-sete um projeto de regulamentação européia autorizando a mistura de tinto e branco para produzir rosés. O que atualmente é proibido na Europa, exceção feita dos champanhes.

Aí entra a guilda dos produtores franceses de rosé, cuja pressão deve levar a França a recuar de sua posição junto a Bruxelas, sem que isso se torne muito evidente. O voto definitivo da questão será dado no dia 27 de abril, na capital belga. A Alemanha votou contra a disposição, o que permitiria à França sentir-se menos isolada para voltar atrás. Será interessante ver o desfecho desta guerra, em um continente cujos países são extremamente ciosos de seus vinhos, queijos e cervejas.

Enfim, entro na discussão para evocar um episódio de meu passado. Há uns bons trinta anos, hospedei em Paris um bom amigo do Sul. Já falei dele em crônica passada. Ganhara uma bolsa em Lyon de uma dessas instituições católicas que pretendem reformar o mundo e, principalmente, a América Latina. (As esquerdas francesas adoram fazer projetos para continentes alheios). Gauchão generoso, para mostrar um pouco do Sul brasileiro, uma vez por mês reunia seus trocados e oferecia um churrasco a seus professores e colegas de curso. Logo foi chamado pela instituição que o financiava. Teria de acabar com os churrascos ou abandonar o curso. Surpreso, o gaúcho queria saber as razões da alternativa: não haviam gostado do churrasco? Nada disso. O churrasco estava excelente. Mas ao apresentar um churrasco como prato típico do Sul do Brasil, para pessoas que só se permitiam consumir no dia-a-dia um transparente bifinho de boi, dava aos franceses uma imagem contraproducente do país.

- “Te convidamos para que possas comover a burguesia francesa falando sobre a miséria no Brasil” - disseram seus anfitriões -. “Mas como vamos convencer um francês de que se passa fome no Brasil, quando apresentas o churrasco como prato nacional?” O gaúcho foi devolvido a Porto Alegre. Em seu lugar, receberam bolsa dois nordestinos, bem ao estilo morte-e-vida-severina. Assador emérito, o amigo que protagonizou este episódio se chamava João Carlos Barbosa. Era gaúcho daqueles que não se fazem mais, e sua memória ainda vaga pelas ruas de Porto Alegre.

A nova discussão francesa me trouxe a memória deste bom amigo. Certa vez, me mostrou como se elaborava um rosé. Pegou um tinto e um branco e os despejou em partes iguais em uma taça. Considerei aquilo como suma heresia e pus na conta de piada de gaúcho.

Em verdade, eu estava diante de um precursor.