¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, março 04, 2009
 
NADA A COMENTAR


Pelo menos três leitores enviam-me o artigo abaixo para comentar:

"IGREJA QUER IMPEDIR NA JUSTIÇA ABORTO DE MENINA DE 9 ANOS

A arquidiocese de Recife e Olinda entrou com um pedido no Ministério Público para tentar impedir o aborto de uma menina de 9 anos grávida de gêmeos na capital pernambucana. A Igreja afirma que condena qualquer tipo de morte e alega também que a mãe da menina não sabia o que estava assinando quando autorizou a interrupção da gestação.

A menina de 9 anos, que foi supostamente estuprada pelo padrasto, está grávida de aproximadamente quatro meses de gêmeos. Segundo o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip), onde ela esteve internada até esta terça-feira, a gravidez é de alto risco para a criança devido à sua estrutura física (a menina tem 36 kg e 1,36 m).

A arquidiocese afirmou que parte de um princípio da moral cristã que condena qualquer tipo de morte. O hospital não quis comentar o assunto".


Em verdade, o pedido da arquidiocese sequer chegou ao MP. Após a divulgação do aborto, realizado durante a madrugada de hoje, os advogados da arquidiocese de Olinda e Recife desistiram da medida depois da divulgação do fato.

Comentar o quê? Não há nada a comentar. A Igreja, esta associação de misóginos com tendência à homossexualidade, jamais entenderá o que é ter filhos ou mesmo ser mãe. Como pode ser sensível a problemas de família quem nunca constituiu família? Fosse um padre o pai da menina, talvez entendesse melhor seu drama.

O que a Igreja quer, é aproximar o padrasto estuprador da estuprada. Sem o aborto, as crianças nascerão. E o pai poderá reivindicar o direito de visita a elas. É uma forma de unir, de maneira legal, o criminoso e a vítima.

Em nome de seus dogmas ou quase dogmas – a questão do aborto não é dogma – a Igreja sempre foi cruel com as pessoas que sofrem. Sem ter a mínima piedade pelo sofredor. Afinal, a verdadeira vida não está aqui na terra, mas nos céus, após a morte.

Ocorreu há pouco. Foi o caso de Eluana Englaro, que comentei no mês passado, mulher de 38 anos, que há dezessete estava em coma. Seus pais obtiveram permissão do Supremo Tribunal da Itália para cessar a administração de alimentos e deixar a mulher partir. A Igreja foi contra e o próprio Berlusconi pegou carona nessa cruzada insana, para revogar a decisão judicial e assim permitir que Eluana sofresse pelo resto de seus dias.

Por sorte, Eluana apressou-se em morrer tão logo a alimentação foi cortada. Não morresse, estava arriscando a uma nova decisão judicial, que a manteria viva, mas sempre em coma. O Vaticano considerou o gesto piedoso dos pais como um “abominável assassinato”.

Mesmo assim, não terminaram os problemas para os pais de Eluana. Já são mais de 50 os processos levantados no Ministério Público italiano contra o pai de Eluana Englaro e a equipa médica da Clínica La Quiete, em Udine, que pedem responsabilidades pela morte de Eluana. Em um dos processos, com 13 páginas, apresentado por uma associação pró-vida chamada “Comité para a Vida e Verdade”, Beppino Englaro é mesmo chamado a responder por homicídio voluntário.

Ou seja, os pais da moça ainda arriscam ir para prisão, por libertá-la de uma prisão mil vezes mais cruel que qualquer outra. A Igreja é isso mesmo. Com o mesmo amor e compaixão com que os inquisidores torturavam um cristão, para salvar-lhe ao menos a alma – já que o corpo estava decididamente destinado às chamas – os sádicos sacerdotes contemporâneos condenam a não morrer quem já não mais vive.

Mais uma vez repito: doutores da Igreja, como são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Isso sem falar que foi só em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize.

Ou seja, por 1.800 anos, a Igreja nada teve contra o aborto. Por teimosia de um papa, proferida há apenas século e meio, d. José Cardoso Sobrinho, o arcebispo de Olinda e Recife, quis condenar ao sofrimento e eventualmente à morte, uma menina de nove anos. Por sorte, os fetos já foram expelidos. Segundo d. José, os responsáveis pelo aborto estão excomungados da Igreja Católica. Ao padrasto estuprador, não foi imposta excomunhão alguma. Ele permanece no seio da Santa Madre. E só poderia ser assim. Estupro não é passível de excomunhão.

Não há nada de novo a comentar.