¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, março 16, 2009
 
ONU ADERE À MINHA PROPOSTA


Para não dizer que jamais fumei um cigarro, lá pelo meus oito ou nove anos cheguei a pôr um na boca. Dei uma tragada, não gostei, joguei-o fora. E até hoje não entendo essa gente que diz ter sido coagida a fumar pela propaganda. Ora, em meu clã todos os varões eram fumantes. Nasci vendo faroestes onde não lembro se quem fumava mais era o mocinho ou o bandido. Como qualquer brasileiro, fui exposto à toda carga publicitária da indústria do tabaco. E nunca me ocorreu fumar.

Drogas, muito menos. Para não dizer que nunca fumei maconha, em Estocolmo, lá por 71, em uma festinha de brasileiros em uma residência universitária, me passaram um bagulho duas ou três vezes. Para não bancar o estraga-prazeres, dei duas ou três tragadas. Estariam no quarto uns dez barbados e três suequinhas adolescentes. Eu era o único a falar sueco. Perguntou-me uma delas:
- Vocês, brasileiros, são todos assim?
- Como assim?
- Ficam fumando maconha, olhando para o próprio umbigo e não conversam?

Expliquei à adorável lourinha nórdica que eu não era brasileiro. Era gaúcho. E não era assim, gostava de conversar. Convidei-as para um vinho em meu quarto. Toparam. Deixamos a brasileirada entretida com o próprio umbigo. Chez moi, bebemos toda a noite. Não digo até sol nascer, já que era verão e sol não nascia. Não nascia porque não se punha, ora pois! Foi um de meus mais belos dias em Estocolmo, beber uma noite toda com as meninas, enquanto os panacas se enfurnavam em seus silêncios no quarto ao lado. Foi esta a única vez em que senti o cheiro da marijuana. Não gostei e nunca mais pensei no assunto.

O que não me atraía na erva, creio não ser tanto seu consumo, mas seus consumidores. Todos gregários, encerrados em si mesmos e, via de regra, sem um pingo de vida inteligente. Mais do que a droga, dela me afastaram seus cultores. No entanto, desde sempre defendi a liberação das drogas. Penso que devem ser vendidas em farmácias ou casas especializadas, como em Amsterdã. Quem quiser, que as consuma. Que sejam advertidos dos riscos à saúde e à vida. E quem quiser morrer, boa viagem.

A liberação tem uma vantagem imediata, desmonta as quadrilhas do tráfego. Aliás, de um carioca, ouvi um argumento insólito: “não é conveniente. A bandidagem vai se voltar para os seqüestros”. Não creio. Seqüestro não é tão simples como vender drogas na esquina. Exige logística, negociação, clandestinidade. Riscos demais. Além disso, não conta com a cumplicidade do seqüestrado. Quanto à droga, no Brasil e em muitos países do mundo, há muito deixou de ser clandestina.

Na Espanha, onde vivi um ano – e onde as drogas são proibidas -, vi maconha e cocaína sendo vendidas, à noite, em cada esquina, com a mesma nonchalance com que se vende bilhetes de loteria. Na Plaza del Angel, em pleno casco viejo, e ao lado de algumas tascas que adoro, chocolate era vendido como pipoca. (Chocolate é – ou era – a gíria madrilenha para maconha). Vi gente se picando em plena luz do dia em praças e fontes, e certamente não estavam injetando insulina. Nos jornais, li notícias de vizinhos que chamavam a polícia para ver montes de seringas acumuladas em pátios de prédios. Em suma, todo mundo sabia onde estava a droga. Menos a polícia.

Como aqui. Para toda e qualquer pessoa que quiser consumir drogas, basta ir até a esquina e informar-se onde ela é vendida. Se é que já não sabe. Já devo ter contado um caso emblemático que presenciei em São Paulo. Em meus primeiros anos na cidade, morei próximo à rua Canuto do Val, notório ponto de comércio de drogas, controlado por traficantes nigerianos. Ninguém ignorava o fato no bairro. Nem o barbeiro, nem taxistas, nem quitandeiras, nem donos de restaurantes. Muito menos a vizinhança.

Isso foi em 1990. Lá por 95, numa transversal, a Francisco Martins, surgiu um bar noturno, o Máfia Nigeriana. Era a sede da máfia da Canuto do Val. Bom, só no ano 2.000 a polícia descobriu – certamente a contragosto – que ali operava uma ativa quadrilha de traficantes. Que hoje mudou-se para uma esquina em prosa e verso cantada, a da Ipiranga com a São João. A afrodescendentada migrou toda para lá e opera à luz do dia, frente aos transeuntes e viaturas de polícia que por ali passam.

Ou seja, discutir a legalização da droga no Brasil é hipocrisia. Há muito está legalizada. Pelo jeito, estamos fazendo escola. Leio na última Veja que, semana passada, uma reunião da Comissão de Entorpecentes da ONU em Viena, definiu os princípios da política antidrogas internacional para os próximos dez anos. “O impressionante – diz a reportagem - não é o plano para o futuro, mas o balanço da última década. A tentativa de criar um mundo livre de drogas, proposta na reunião da ONU de 1998, foi um fracasso. Estima-se que 210 milhões de pessoas, ou cinco em cada 100 adultos, usaram algum tipo de droga ilícita nos últimos doze meses. A proporção mantém-se inalterada desde a década passada”.

E sempre será um fracasso. A capilaridade do tráfego é tal que não há polícia que o reprima. Além do mais, os traficantes contam com uma cumplicidade importante, a dos consumidores. Os clientes do tráfico parecem ainda não ter-se dado conta de que, a cada baseado que consomem, estão financiando a criminalidade. Não há quem ignore que toda e qualquer rave é movida a ecstasy, nem mesmo os pais dos adolescentes que delas participam. Só a polícia ignora. Ou seja, até as ditas boas famílias já aceitam o consumo de drogas por seus rebentos.

Impotente, a ONU está pensando na menos pior das soluções, a liberação. E tende a adotar a solução brasileira, o “liberou geral”. Ou, se quisermos dar-lhe mais importância, a do falecido Nobel de Economia, Milton Friedman, que já defendia a legalização das drogas na década de 70. A esta tese, aderiu inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Segundo seus defensores, "os governos poderiam taxar e regulamentar o comércio de drogas, tirando-o das mãos dos traficantes e diminuindo a violência associada à disputa por mercados consumidores. Com esse dinheiro, financiariam programas de tratamento de dependentes e educariam seus cidadãos sobre os malefícios dos entorpecentes”.

A diferença entre esta proposição e o quadro brasileiro é que entre nós a droga continua - pelo menos teoricamente - proibida por lei. O governo não recebe taxa alguma e o lucro todo é das máfias. Por esta razão, o mais ferrenho adversário da legalização das drogas é o próprio tráfico. Polícia e demais autoridades, em nome da moral e dos bons costumes, apóiam a posição dos traficantes.

De graça não há de ser.