¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, março 09, 2009
 
COMO PODE A FRANÇA VOLTAR À
ANTIGA, BOA E VERDADEIRA FÉ



Comentei, mês passado, o inquietante estudo divulgado pelo Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), que demoniza o álcool como fator cancerígeno. Na relação entre o que comemos e bebemos – dizia a pesquisa - e as possibilidades de vir a ter um câncer, o álcool é o primeiro a sentar-se nos banco dos réus. Na referência álcool-câncer não existiria dose protetora. As pequenas e repetidas doses seriam as mais nocivas, segundo os cientistas, que desaconselhavam até mesmo uma taça diária de vinho.

Comentando isto com os médicos que nestes dias me cercam, ouvi risos e comentários cépticos. Espero que a medicina nacional não se paute tão cedo pela pesquisa do INCA. Mas a guerra contra o vinho na França está tomando proporções alarmantes. Leio no Der Spiegel que um projeto de lei proposto pela ministra da Saúde francesa ameaçou acabar com as degustações de vinho no país. Mas um protesto em massa por parte dos negociantes de vinho conseguiu alterar a lei no último momento.

Roselyne Bachelot, a ministra através da qual emerge o escândalo na Europa, em uma proposta que ela escreveu para a reforma do sistema hospitalar francês, também inseriu um artigo cujo objetivo era combater o alcoolismo. Conseguiu desafetos em duas frentes. Por um lado, médicos e enfermeiras tomaram as ruas para expressar sua indignação com os corte draconianos de funcionários e a concomitante lucratividade do sistema de saúde enfatizada pelo projeto de reforma. Por outro, teve de enfrentar a fúria dos negociantes de vinhos da França.

É que no artigo 24 de sua proposta, em vez de perseguir os alvos tradicionais do Ministério da Saúde, como o câncer, o Alzheimer ou a falta de doadores de órgãos, Bachelot pretendeu limitar o consumo de álcool pela juventude francesa. O alvo da ministra foi o consumo ilimitado de bebida nos chamados "Open Bars", onde adolescentes podem beber o quanto quiserem por um preço único pago na entrada.

Mas a redação da lei foi infeliz, ao pedir a proibição da "oferta de bebidas alcoólicas de graça ou por um preço único". A ministra não se deu conta de que, assim formulada, a lei proibiria as amostras grátis das lojas de vinhos dos shoppings. Pior ainda: seria proibida a degustação nos inúmeros festivais de vinho da França. Só faltou os vendedores de vinho saírem pelas ruas cantando a Marseillese. Que bem poderia ter uma versão mais adaptada aos novos tempos:

Allons enfants de la patrie,
le jour de boire est arrivé.


O projeto de lei foi visto como um atentado às tradições culinárias da França. Falou-se inclusive em "ataque à cultura". Óbvio. Vinho também é cultura. Os jornais franceses foram inundados por páginas inteiras de anúncios que consideravam a ofensiva antialcoolismo como "um novo passo em direção à proibição". O protesto foi assumido por prefeitos, líderes regionais e parlamentares de todo o país.

Na noite de quinta-feira, a ameaça foi conjurada. Segundo o Spiegel, depois de um longo e aquecido debate que colocou os legisladores antiálcool contra os defensores das tradições da mesa francesa, um acordo foi feito à 1h30 da sexta-feira. A consumação livre por um preço fixo será banida no futuro, mas as degustações de vinho nos supermercados, chateaux e festivais podem continuar. Se o Senado concordar.

Se não concordar, creio que sempre há uma solução. Há dois anos, eu comentava um estudo segundo o qual só um francês entre dois ainda se declara católico. E só um católico entre dois crê em Deus. A conclusão é que se a imagem da Igreja e do papa continuam boas, a esmagadora maioria dos fiéis toma distância em relação ao dogma e permanece aberta ao diálogo com outras religiões.

Reside neste impasse hoje vivido pela “fille ainée de l’Église” – como já foi definida a França – a chance de uma volta à fé cristã. Se algum católico ainda lembra da doutrina da transubstanciação do pão e do vinho, está ciente de que na missa come-se a carne de Cristo e não um símbolo da carne de Cristo. Bebe-se o sangue de Cristo e não um símbolo do sangue de Cristo. E quem nisto não crer é herege. Segunda a encíclica Ecclesia de Eucharistia, no capítulo 1 § 15, lemos: “Pela consagração do pão e do vinho se opera a transformação de toda substância do pão na substância do corpo do Cristo nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue; esta transformação, a Igreja católica a chamou justa e exatamente de transubstanciação”.

A solução não é nem simples, é simplória. Basta aos incrédulos franceses voltar à boa fé católica. Um vez consagrado pelas mãos mágicas do sacerdote, o vinho não é mais vinho, é sangue. Como lei alguma proíbe beber sangue na França, poder-se-ia conclamar os sacerdotes do país a multiplicar o número de missas pelo país, transformando o vinho proibido em bebida legalmente potável. Teríamos missas nos parques e praças, nas grandes avenidas e boulevards, nos cafés, cabarés e restaurantes e, por que não? – até mesmo nas igrejas.

Sem falar que poderíamos degustar o sangue divino das mais diferentes cepas: Cabernet, Sauvignon, Cabernet, Chardonnais, Gamay, Merlot, Mourvedre, Pinot noir, Pinot gris, Carignon, Syrah, Semillon. Poderíamos ter uma Eucaristia de terroir: Saint Emilion, Médoc, Chablis, Margaux, Gewurztraminer, Pomerol.

E, por que não, Champagne? Champagne também é vinho, logo é transubstanciável. Teríamos, aposto, um surto de vocações sacerdotais e a volta daquele país de hereges ao redil do bom pastor. Se bem conheço os franceses, as conversões eclodiriam aos montes, como cogumelos após a chuva.

Sua Santidade Bento XVI parece não ter percebido esta oportunidade de ouro de converter à verdadeira fé um país hoje tão longe de Deus.