¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, março 17, 2009
 
QUANDO FÉ PRODUZ SOFRIMENTO (I)


Quando celebrei o sumiço de meu tumor, de um leitor que se assina Kleber, recebi mensagem das mais cristãs: “Na garganta pode ser um sinal do Divino que você tanto nega. Um aviso para que você pare de falar besteiras a Seu respeito”.

Em princípio, o leitor é um cristão coerente. O Divino é um deus ciumento e cioso do respeito à sua deidade. Pune com morte, tortura e sofrimentos até mesmo quem nele não crê. Não precisa nem ofender. Basta descrer. Continuando, o leitor carece de razão. Nas última crônicas, quase não tenho falado sobre o Divino. Tenho apenas reproduzido suas divinas palavras. Se elas ferem o senso de humanidade contemporâneo, paciência. Estão lá no Livro. Nada posso fazer. De qualquer forma, o Divino do Kleber se revelou incompetente. Este câncer, tirei de letra. Que mande outro, se não quiser ficar desmoralizado, ante até mesmo o próprio leitor que me escreve imbuído de tanto amor.

Confesso que não me inquietei nem um pouco ao descobrir o tumor. Primeiro, todo homem tem sua hora e minha vida foi bem vivida. Se tivesse de partir agora, já teria sido de bom tamanho. Claro que sempre esperamos por mais uns dias. Em meu caso, pelo menos enquanto puder viajar, beber, namorar e comer, quero ficar. Quando estiver impossibilitado disto, bom, aí é hora de fazer as contas e dizer tchau pros amigos.

Tampouco me inquietei porque, analisado bem o tumor, intuí que a hora não havia chegado. Quais são minhas chances? - perguntei ao médico. Altas, me disse, algo em torno a 95%. 100% só com Deus. Tive de discordar. Com Deus, doutor, é zero por cento. Dele ninguém escapa. Escreveu Jean Rostand, biólogo: “Quem mata um é assassino, quem mata milhões é conquistador, quem mata todos é Deus”.

Em meio a isso, tenho recebido inúmeras mensagens de regozijo, de leitores que me querem bem. Gratíssimo, caros. No que depender do Divino do Kleber, ainda me resta um bom tempo para divertir-me às custas dos crentes. Não tenho medo da morte. Tem medo quem acha que vai encontrar tribunais no Além. Como sei que não há tribunal nem coisa alguma, partirei tranqüilo. Quando quiser chegar, que chegue. Ficarei triste, apenas isto. Triste porque a festa da vida vai continuar e dela estarei ausente. Talvez até mesmo chore, como chorei um dia em Madri, ao perceber que dali a duas horas estaria voando para longe de Madri, isto é, abandonando as madriles, el vino y las canciones. Sim, acho que será mais ou menos assim. Quem parte, descansa. Sofre é quem fica.

Pena que hoje ninguém mais morre lúcido. Morremos todos sedados. Morresse com meus sentidos despertos, gostaria de ter uma banda mariachi cantando em torno a meu leito funerário.

Mujeres muy lindas, rechulas de cara,
así son las hembras en Guadalajara.
En Jalisco se quiere a la buena
porque es peligroso querer a la mala,
por una morena echar mucha bala
y bajo la luna cantar en Chapala.


Ou talvez ao som de tangos, de preferência na voz de Libertad Lamarque:

Adiós muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.
Adiós muchachos. Ya me voy y me resigno...
Contra el destino nadie la talla...
Se terminaron para mí todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más...