¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, março 17, 2009
 
QUANDO FÉ PRODUZ SOFRIMENTO (II)


Em meio a isto, leio no El País de hoje notícia das mais significativas sobre como os crentes enfrentam a morte.

“Um estudo publicado em 2006 mostrava que rezar por alguém não melhorava seu estado de saúde. O trabalho, feito nos Estados Unidos, foi apenas uma aproximação mais à interferência (ou não) entre a fé e a ciência. Mas há outros parâmetros que abrigam esta influência. Os especialistas em medicina paliativa sabem que as pessoas com um profundo sentimento religioso suportam melhor o mal-estar dos últimos dias. Mas isto pode voltar-se contra elas. Uma nova investigação demonstrou que as pessoas mais crentes são mais inclinadas a prolongar artificialmente suas vidas”.

João Paulo II que o diga. Vice-Deus e líder da cristandade, na hora do Jesus-está-chamando apelou à medicina de ponta e aferrou-se o quanto pode a esta boa e velha terra. O corpo pedia para partir, mas seu espírito se manteve sempre apegado a esta nossa vil matéria. Verdade que, lá em seus estertores, acabou pedindo água: “Deixai-me encontrar o pai”.

Sempre entendi que todo cristão coerente deveria sentir-se feliz ante a perspectiva de sua morte. É a tão esperada chance de encontrar-se com o criador. Mas não é que vemos à nossa volta. Em A Peste, pela voz de Paneloux, Camus escreve:

“Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem".

Submissão total. Mas isso lá na Abissínia. Não é o que vemos nos dias contemporâneos. Já nem falo do Vice-Deus. Mas o vice-presidente da República, homem profundamente crente, sempre que vê pela frente a Indesejada das Gentes, vai correndo em busca de excelência médica. Diz não temer a morte. Mas faz tudo para evitá-la. Como dizia Dom Sebastião: “morrer, sim. Mas não já!”

Volto à reportagem. A pesquisa foi feita no Dana-Farber Cancer Institute, e consistiu no acompanhamento da evolução de 345 pessoas com câncer terminal. O tempo médio de sobrevivência foi de 122 dias. A principal descoberta foi que os pacientes que se definiam como mais religiosos se submetiam mais vezes a tratamentos como respiradores artificiais e outras técnicas agressivas, que não têm capacidade curativa mas servem para prolongar a agonia. Segundo o coordenador da pesquisa, Andrea C. Phelps, do Beth Israel Deaconess Medical Center (Boston), “um tratamento agressivo ao final da vida quando se tem câncer associa-se amiúde com uma pior qualidade de morte, o que pode representar um efeito negativo para as pessoas mais religiosas”.

Confesso que jamais tive muito convívio com a Indesejada das Gentes. Viajar é fugir da morte. Ou talvez das mortes. Quando meu pai morreu, eu estava em Lisboa. Quando foi a vez de minha mãe, eu perambulava por Segóvia. A única morte que vi de perto, e isto já próximo aos sessenta, foi a de minha Baixinha. Sem esperanças nem temores em relação ao Além, há muito ela me pedia que, caso sofresse de uma dessas doenças que reduz uma pessoa a vegetal, eu a levasse até a Suíça, onde a eutanásia já era legal. Não foi preciso. Antes de partir, com um sorriso lindo que me fez chorar, ela sussurrou: "não tenho medo da morte".

É o que, ateu, também peço. Mas já não se precisa ir à Suíça. Há muito médico no Brasil, com suficiente senso de humanidade, para desligar o paciente na hora adequada. Ao arrepio da lei, é claro. Melhor assim. Prolongar o gozo é ótimo. Mas não vejo sentido algum em prolongar o sofrimento.

Já o crente, morre em meio a dúvidas. Viaja rumo ao desconhecido. Terá mesmo o tal de julgamento? Será que fui justo o suficiente para ser absolvido? Mesmo que mereça a salvação, quanto tempo ficarei em banho-maria no purgatório? E se não merecer? Vou queimar pela eternidade? O pobre diabo se apega então a qualquer segundo de vida, para protelar a passagem. Fé torna-se sinônimo de tortura.

Encontrar o Divino, sim. Mas não já!