¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, março 15, 2009
 
REVIRAVOLTA: VATICANO RETIRA
APOIO AO ARCEBISPO DO RECIFE



E segue o baile no galpão, como se diz em meus pagos. Está longe de chegar a um final a affaire da menina de Alagoinha. O caso dividiu águas e está provocando cisão na Igreja de Roma. Que não se espere um cisma, a Santa Sé está hoje muito desmoralizada para bater pé em torno de seus princípios. Mas uma menina de nove anos conseguiu trazer à tona a obstinação de uma instituição medieval, cega na defesa de sua doutrina absurda, e o descompasso desta doutrina com o mais comezinho humanismo laico contemporâneo.

Leio no El País de hoje que o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Rino Fisichella, reprovou na capa do Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, o arcebispo de Olinda e Recife por ter declarado a excomunhão da mãe e dos médicos que praticaram aborto na menina de Alagoinha. Fisichella vai mais longe: defende os médicos excomungados por levar a cabo a interrupção da gravidez. "São outros os que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que te permitiram viver e que te ajudaram a recuperar a esperança e a confiança”, disse, dirigindo-se diretamente à menina.

Para o arcebispo italiano, o caso ganhou as páginas dos jornais só porque o arcebispo de Olinda e Recife se moveu apressadamente para declarar a excomunhão. Lamenta ainda as conseqüências do episódio: “ressentiu-se a credibilidade de nosso magistério, que a muitos pareceu insensível, incompreensível e privado de misericórdia”.

Resumindo: a Cúria Metropolitana apoiou o anúncio da excomunhão pelo arcebispo. Altas autoridades vaticanas, inicialmente, endossaram este apoio. Em oposição ao Vaticano, a CNBB a reprovou. O Vaticano faz agora marcha a ré, fecha com a CNBB e reprova a atitude do bispo. Mas ninguém imagine que o cardeal Fisichella condene o instituto da excomunhão. O que ele condena é a pressa de Dom José em anunciar o fato. “O aborto não espontâneo sempre foi e continua sendo condenado à excomunhão. Não era necessário, a nosso juízo, tanta urgência em dar publicidade a um fato que se dá de maneira automática”. Na verdade, o cardeal se desdiz. Se antes afirmava que não merecem a excomunhão “os que te permitiram viver e que te ajudaram a recuperar a esperança e a confiança”, na frase seguinte afirma que estes estão mesmo excomungados. O pecado do arcebispo foi abrir a boca.

Bastou uma anônima menina ter engravidado por estupro nos grotões do Nordeste para embatucar a Igreja, ora dividida em torno à questão. No fundo, a teimosia vaticana. Para defender um dispositivo introduzido há século e meio em um código canônico – que não tem força alguma de lei em sociedades laicas – entra em confronto não só com o mais comezinho senso de humanidade contemporâneo, mas também com a legislação brasileira.

Como a Igreja está vendo seu rebanho mermar no mundo todo, seus sacerdotes tentam salvar pelo menos alguma coisa do naufrágio. Daí o vai-e-vem de pronunciamentos das autoridades religiosas, que não conseguem mais sustentar o obsoletismo de Roma.