¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

domingo, março 01, 2009
 
VATICANO REEXCOMUNGARÁ
O BISPO DESEXCOMUNGADO?



Há no mundo todo pessoas negando os fatos mais óbvios. Há quem negue que a terra seja redonda. Quando criança, participei deste clube. Eu apresentava a meus professores um argumento que me parecia incontestável. Apanhemos uma laranja – dizia eu do alto de meus oito ou nove anos -. Coloquemos nela uma formiga. Se a formiga for descendo, acabará ficando de patas para cima. Como é que não temos notícia de que ninguém no mundo, nem mesmo nossos antípodas, vivam de pernas para cima? Na época, não tínhamos ainda as fotos de satélites. Se os professores continuavam insistindo naquela bobagem, a meu ver era porque não tinham espírito crítico.

Há quem negue que o homem foi à Lua, há quem negue os gulags de Stalin e os massacres de Mao. Mais recentemente, fez sucesso na Europa um livro que negava o atentado terrorista ao Pentágono, no 11 de setembro. Há quem negue o afundamento do Altalena por Yitzhak Rabin, ou pelo menos o justifique. Por que cargas d’água então é considerado crime negar o Holocausto em vários países da União Européia? Ora, quem faz tal afirmação já está suficientemente punido pelo ônus do ridículo. Negar o Holocausto é uma opinião estúpida, mas opinião. Para punir-se do nazismo, a Europa chegou a criar a figura repulsiva do crime de opinião.

Bento XVI, em mais uma de suas já proverbiais mancadas, levantou há pouco a excomunhão de quatro bispos excluídos do seio da Santa Madre, por decisão de João Paulo II, por terem sido ordenados pelo arcebispo dissidente Marcel Lefebvre. Ocorre que entre estes quatro bispos estava o britânico Richard Williamson. Que nega que as câmaras de gás nazistas tivessem sido usadas para exterminar judeus, e afirma que no Holocausto não morreram seis milhões de pessoas, mas entre 300 mil e 400 mil.

Escândalo em Israel e na Europa. Na Alemanha, houve católicos abandonando a Igreja romana em função deste gesto precipitado do Bento. Pressionado pela opinião internacional, o Vaticano exigiu retratação do bispo britânico. Que inclusive chegou a ser expulso da Argentina, logo da Argentina, porto acolhedor de tantos oficiais nazistas.

No final do mês passado, o bispo pediu perdão perante Deus a todas as almas que ficaram honestamente escandalizadas pelo que disse. "Posso dizer verdadeiramente que lamento ter dado estas declarações. Além disso, se soubesse com antecipação todo o dano e os ferimentos que provocariam, especialmente à Igreja, mas também aos sobreviventes e entes queridos das vítimas de injustiça sob o Terceiro Reich, não as teria feito", completou o bispo.

Pediu perdão mas, astutamente, não se retratou. Se pensava enganar as raposas engalanadas do Vaticano, Williamson em muito se enganava. O Vaticano considerou insuficientes e equívocas suas desculpas. Avaliou que a carta divulgada pelo bispo "não parece respeitar as condições estabelecidas em uma nota da Secretaria de Estado de 4 de fevereiro, que exige que se retrate absoluta, inequívoca e publicamente de sua posição sobre Holocausto", afirmou Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé.

Que mais quer o Vaticano? Que um homem mude suas convicções só porque o Vaticano quer? Ora, se Richard Williamson quiser enfrentar algum tribunal europeu por ter ferido uma lei discutível, mas lei, isto é opção sua. Mas o Vaticano não tem poder algum para obrigar um homem a renunciar à sua opinião, ainda que errônea. A menos que conserve reflexos da Idade Média, quando atrás de cada recomendação sua pairava a sombra da Inquisição e das fogueiras.

O impasse está lançado. Se Williamson não se retratou até agora, é improvável que o faça amanhã. Estaria se desmoralizando. Resta ao Vaticano uma solução, reexcomungar o bispo excomungado por João Paulo e desexcomungado por Bento. Aí quem se desmoraliza é o Vaticano.

Suspense. Esperemos os próximos capítulos desta emocionante novela vaticana.