¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, abril 05, 2009
 
AINDA OS AFONSOS CELSOS


Seguidamente tropeço com estes senhores. Toda a pessoa que viaja conhece melhor seu país do que aqueles que ficaram. Tem termos de comparação. Chesterton é um escritor católico, tenho várias razões para não ter muito apreço por sua obra. Se a ficção em si já é uma mentira, a ficção católica é duas vezes mentira, pois embute uma outra mentira na anterior. Mas Chesterton tem uma frase que adoro: “não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela”. Esta observação só pode partir da boca de um homem viajante.

Não é preciso ter muitas luzes para aprender com as viagens. O mais inculto dos brasileiros que toma um metrô em Paris, Berlim e Estocolmo, logo percebe que as cidades não precisam ser conturbadas como São Paulo. Você chega no Charles de Gaulle, digamos. E descobre que pode ir de metrô até a cidade, descendo na porta – ou perto da porta – de seu hotel. A pergunta salta automaticamente: e por que não posso fazer isso em São Paulo?

Antes de ir adiante, respondo. Não pode porque uma máfia de empresários não quer. Não pode porque metrôs não interessam a políticos brasileiros. Metrô não rende votos, começa hoje e as obras levam anos para serem entregues ao público. Não interessa. Ainda há pouco, uma reportagem no Estadão descobria que o trânsito é um dos poucos fatores democráticos da cidade, tanto o pobre quanto o rico levam praticamente o mesmo tempo em seus deslocamentos. Estejam em um carro de luxo ou num ônibus, o atravancamento é o mesmo.

Pequenos e singelos fatos, como ver um ônibus se inclinando lateralmente para que um passageiro suba com mais conforto, mexem com a alma do mais ferrenho analfabeto. Ou ver uma placa de horários de ônibus, como eu vi na Suécia, ainda nos anos 70. O ônibus n° tal passa aqui às 08h15, 08h21, 08h27, 08h33 e assim por diante, com horários precisos e fixos durante toda a jornada. E você pode acertar o relógio pela chegada do ônibus. Já vi inclusive motorista diminuindo a velocidade de um ônibus para não chegar adiantado. Isto se chama civilização, moeda bastante escassa cá nos trópicos.

Volto aos Afonsos Celsos. Para eles, no Brasil tudo é lindo, divino, maravilhoso. O país não tem mácula alguma e Lula é o Messias que os tempos esperavam. (Não confundir os Afonsos Celsos com petistas. Petista é até capaz de fazer críticas a Lula). Se você diz que o Brasil, como país, é um caos, lá vem a pergunta, rápida e direta como uma bala: então porque você mora aqui?

Respondo na tampa. Moro aqui porque sou brasileiro, tenho passaporte brasileiro e posso residir onde quiser neste país. Menos nas reservas indígenas, é claro, mas também é claro que lá eu jamais pretenderia residir. Sem falar que, no momento, o Brasil é o país mais conveniente que tenho para viver. Brasileiro sendo, me reservo o direito de tecer críticas a meu país, já que o conheço bem. Mais difícil para mim, senão impossível, seria tecer críticas à Noruega ou à Suíça.

Certo dia, comentava eu numa roda o caos paulistano, quando do outro lado da mesa saltou o brutamontes: então que estás fazendo aqui? Respondi com minha resposta padrão. Ele, um pobre diabo que fora São Paulo só conhecia sua aldeia natal, era Afonso Celso dos preparados. Foi até o carro, trouxe uma centena de bandeirinhas do Brasil e as espalhou sobre a mesa. Esta subespécie eu não conhecia. E partiu para o insulto. Como quando alguém discute com um idiota os idiotas são dois, retirei meu time de campo.

Sem conhecer outros países, ninguém conhece o Brasil a fundo. Notícias do estrangeiro não bastam, é preciso ver com os próprios olhos. Jornal nenhum noticia que os ônibus, em vários países da Europa, se inclinam para que o passageiro suba. Nunca vi, exceto em textos meus, notícias sobre horários de ônibus em Estocolmo ou Paris.

Mas, infelizmente, viajar não basta. Existe aquele turista que pode dar dez voltas ao mundo e acaba sem aprender nada. Falo dos adeptos de excursões. Para começar, se dão ao luxo de levar cinco ou mais malas. Há quem leve dez ou doze. Afinal de contas, não são eles que as carregam. Jamais têm a preocupação de tomar a primeira e mais importante providência de todo viajante, a de comprar um mapa da cidade em que chega. Pra que mapas, se o guia os deixa no hotel e os leva para todo lugar? Começam, então, sem ter mesmo uma idéia geográfica da cidade que visitaram.

São capazes de percorrer a Europa toda sem conhecer as delícias de uma viagem de trem, as excursões geralmente usam ônibus. Se um belo dia têm de tomar um trem, descobrem então que não é nada confortável viajar de trem com cinco ou seis malas. Não têm preocupação alguma em adquirir um vocabulário mínimo da língua que os cerca, afinal o guia fala vernáculo. Não conseguem ler um cardápio sem que o guia o traduza. Acabam voltando do estrangeiro sem saber dizer o nome dos pratos que comeram. Desconhecem as facilidades de transporte da cidade, andam sempre no ônibus da excursão. Jamais verão o ônibus que se inclina nem seus horários de passagem. Jamais viverão a ventura de perder-se em vielas inesperadas e depois consultar um mapa para voltar ao bom caminho.

Claro que esse tipo de viajante, por mais giros que dê pelo planeta, não tem condições de comparar coisa alguma. Volta e continua o mesmo Afonso Celso de sempre. Teria dezenas de histórias para contar sobre eles. Talvez volte ao assunto. Por enquanto, me resumo a duas.

Em meus dias de Paris, eu fazia crônica diária para a Folha da Manhã, de Porto Alegre. Ao pé da coluna, deixava meu endereço e telefone. Não era incomum um leitor telefonar-me e convidar-me para um almoço ou janta. Certo dia, surgiu ele, o patriotão:

- Janer, sou teu leitor, ando viajando pela Europa, gostaria de te convidar para um almoço.

Topei. Gosto de conhecer pessoas. Que tipo de cozinha te agrada?

- Bom, suponho que conheças algum restaurante brasileiro, quem sabe uma feijoadinha?

Quase caí de meus tamancos. É tua primeira viagem?

- É! Estou na Europa há cinco dias, já visitei três países e cheguei ontem em Paris. Estou seco por uma feijoada.

Em um país de uma oferta culinária estupenda, o bruto queria uma reles feijoada. Não entendo essa gente. É possível que sejam movidos pelo medo do desconhecido, pelo horror de degustar algo que jamais degustaram. Claro que declinei do convite. Diga-se de passagem, nunca em minha vida entrei em um restaurante brasileiro, nem em Paris nem em qualquer cidade da Europa. Não viajo para comer comida brasileira.

Segundo caso, uma colega de universidade, professora de Literatura Portuguesa. Ia para Madri. Passei-lhe a lista dos melhores restaurantes da cidade. Na volta, curioso, quis saber o que achara de minha seleção.

- Não sei. Só fui a McDonalds.

Ah! Cortei relações. Quem vai a Madri e só freqüenta essas casas abomináveis, não viu Madri. Não tenho nada a falar – nem a ouvir – de clientes de McDonalds. Essa gente deveria ser interrogada na entrada do aeroporto: você pretende comer em McDonalds? Se a resposta fosse positiva, deveria ser considerada uma ofensa à culinária nacional.

Este viajante – se é que merece este nome – deveria ser repatriado incontinenti à seu país, para curtir o feijão com arroz do dia-a-dia.