¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, abril 10, 2009
 
BENTO BRANDE CALÚNIA SÓRDIDA
CONTRA UM GENIAL CONTERRÂNEO



Sua Santidade não perdeu a oportunidade da Páscoa para pronunciar mais uma de suas corriqueiras bobagens. Ao celebrar, ontem, a Missa Crismal, na Basílica de São Pedro, em sua homilia advertiu contra a visão que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche tinha da liberdade absoluta do homem - que, segundo o papa, "leva à soberba destrutiva e à violência".

"Nietzsche zombou da humildade e da obediência e as considerou como virtudes servis, que reprimem os homens. Colocou em seu lugar a dignidade e a liberdade absoluta do homem. Pois bem, existe uma caricatura de uma humildade e de uma submissão equivocada que não queremos imitar, mas existe também uma soberba destrutiva e uma jactância que desagregam qualquer comunidade e acabam na violência."

Em 2007, Bento XVI andou fazendo acenos cúmplices a Marx ao afirmar que ele "descreveu de maneira drástica a alienação do homem. Mesmo que não tenha atingido a verdadeira profundidade da alienação - porque raciocinava apenas em âmbito material -, forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos". O uso do cachimbo entorta a boca. Em sua homilia, o papa assumiu aquele comportamento vil de todo marxista, o de atribuir ao adversário todos os vícios que cultiva.

Em primeiro lugar, Nietzsche nunca apregoou essa tal de liberdade absoluta, da qual Bento fala, sem defini-la. Por liberdade absoluta entende-se uma volição sem limites, sem freios morais ou legais. Ora, se o filósofo alemão foi um crítico acerbo dos valores morais dominantes do século XIX e do Ocidente, em momento algum sentiu-se absolutamente livre para transgredi-los. Sequer no que diz respeito à moral sexual da época, que Nietzsche condenava com veemência. Segundo seus biógrafos, sua vida erótica foi escassa, senão inexistente.

De liberdade absoluta gozaram os antecessores de Bento, que se sentiam no direito de mandar para a tortura e para a fogueira quem quer que discordasse da doutrina oficial da Igreja. De liberdade absoluta goza quem condena um cientista que ousa afirmar que a terra gira em torno ao sol. Como de liberdade absoluta goza a instituição que um dia queima uma virgem e mais tarde a canoniza como santa. Liberdade absoluta é reduzir o corpo de um homem a frangalhos, para salvar-lhe a alma, ainda que este homem não queira ter alma alguma salva. Liberdade absoluta é isso, cometer crimes horrendos em nome de um deus inexistente. Essa liberdade, Nietzsche sempre abominou. Crime algum pode ser imputado à sua biografia.

Quanto à humildade, quem é este senhor para condenar sua falta em quem quer que seja? Bento vive em um palácio que nem um sultão do Brunei ousa sonhar, tem uma vila magnífica para seu repouso quando se sente entediado da pompa vaticana, vive cercado de toneladas de ouro, prata, pedras preciosas e obras de arte que já nem podem ser valoradas economicamente, viaja para onde quiser sem pagar um vintém, tem um séquito de servos para a satisfação do menor de seus caprichos, porta parangolés bordados em ouro que nenhum chefe de Estado ousaria portar, detém um mandato vitalício e mais, goza de infalibilidade em seus pronunciamentos ex-catedra. Que autoridade tem esta potestade, que além de tudo se julga o único intérprete legítimo de Deus, para acusar um modesto professor de filologia de falta de humildade?

Quanto à obediência, se é instrumento de poder da Igreja, que a impõe cegamente a seus sacerdotes, nunca foi virtude de homem livre. Nietzsche não era padre nem militar, não pertencia a nenhuma igreja, seita ou exército, instituições que não existem sem uma rígida obediência. Mais que filósofo, era um livre pensador. Livres pensadores não devem obediência a ninguém, nem mesmo ao pensamento dominante de suas épocas.

Mas a atitude mais sórdida de Sua Santidade, indigna de um dignitário ocidental - Lula, Evo e Chávez à parte, é claro! – foi insinuar que o pensamento de Nietzsche está na origem do nazismo. Bento fala de “uma soberba destrutiva e uma jactância que desagregam qualquer comunidade e acabam na violência”. Está apontando para o nazismo. Não ousa afirmar com todas as letras. Apenas insinua. Ora, fica feio para um papa insinuar. O pensamento do sublime alemão jamais serviu para desagregar comunidades, muito menos levou quem quer seja à violência. Os nazistas, é verdade, tentaram apoderar-se de seu pensamento, particularmente do conceito de Übermensch, que procuraram associar ao ideal hitlerista do homem ariano. Ora, Übermensch é apenas um ideal de superação do atual ser humano, que nada tem a ver com o racismo nazista.

Esta calúnia é freqüente entre católicos e marxistas, que não suportam o pensamento libertário de Nietzsche e seu desprezo pelos regimes totalitários. Bento XVI, que em sua adolescência militou nas Juventudes Nazistas, agora responsabiliza Nietzsche pelo nazismo. Reação típica de marxista - ou petista, se quisermos - que joga no adversário sua própria infâmia. Tendo seguidamente cometido gafes sobre a doutrina que professa, mais uma vez o papa enganou-se rotundamente ao caluniar seu mais genial conterrâneo. Responsabilizar Nietzsche pelo nazismo é desconhecer sua obra. Aqui vão algumas opiniões suas sobre os alemães, transcritas de Ecce Homo:

"Os alemães são incapazes de conceber a grandeza: seja Schumann o informante".

"Feito como sou, instintivamente estranho a tudo o que é alemão (a ponto de me bastar a aproximação de um deles para retardar-me a digestão)..."

"Por onde quer que passe, a Alemanha destrói a cultura".

"Primeiro, dois séculos de disciplina psicológica e artística, caros senhores alemães... Mas estas coisas não se alcançam facilmente".

"Nunca admitirei que um alemão possa saber o que seja a música!"

"Em Viena, em Copenhague, em Paris, em Nova York, por toda a parte estou descoberto: não o estou somente no país mais ordinário da Europa - a Alemanha".

E por aí vai. Verdade que na edição póstuma de Vontade de Potênciapode-se encontrar momentos que possam justificar o nazismo. Mas não se pode responsabilizar um autor por uma obra que foi deturpada por terceiros, no caso a irmã do filósofo, Elisabeth Forster-Nietzsche. Elisabeth - que acabou morrendo no Paraguai em 1935 - quis acomodar o livro inacabado do irmão aos interesses do nazismo.

Como dizia Nietzsche, é impossível cercar uma boa doutrina: os porcos criam asas. O líder da Igreja que matou, torturou e mandou para a fogueira milhares de cristãos, em nome de Cristo, devia saber disto.