¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, abril 15, 2009
 
COORTE COLOR


Este estudo analisa os laços que existem entre consumo de bebidas alcoólicas (vinho, cerveja, alcoóis fortes) e mortalidade por diferentes tipos de câncer sobre uma coorte de 100 mil pessoas (do nordeste da França) seguidas durante 25 anos. Se o álcool em geral é de fato um fator de risco para numerosos cânceres, a consumação moderada de vinho tinto protege contra um certo número deles. A análise da coorte mostra com efeito que um consumo moderado de álcool, mais particularmente de vinho, é associado a uma redução de 40% da mortalidade cardiovascular em pessoas de idade média. Da mesma forma o vinho (e só o vinho entre as bebidas alcoólicas), consumido na dose de uma a três taças por dia é associado a uma baixa de 20% da mortalidade por câncer.

Entre os fatores de risco de mortalidade por câncer, encontra-se um baixo nível de educação, uma pressão arterial elevada, uma taxa de colesterol baixa, o tabagismo, o sedentarismo e o fato de consumir pouca água. Enquanto mais o consumo de álcool é elevado, mais aumenta o risco de mortalidade por câncer, a preferência pelo vinho, e seja qual for a dose de álcool, é associado com um risco significativamente mais baixo de mortalidade por câncer (dos pulmões, do tubo digestivo, da boca e da faringe). Se existe um ponto sobre o qual os estudos da universidade de Oxford, do Inca (Instituto Nacional do Câncer, na França) e da coorte Color coincidem é sobre o fato de que o consumo excessivo de álcool é perigoso para a saúde e induz ao câncer. O fenômeno de binge drinking que consiste em embriagar-se durante as refeições é de longe o comportamento de maior risco. Sobre o resto, forçoso é constatar que as conclusões divergem.

Estudos mal mediatizados

Um elemento importante, e surpreendentemente pouco debatido, do estudo de Oxford é que o aumento impressionante de 160% do risco de câncer das vias aéreas e digestivas superiores só é observado nos fumantes. Nenhum aumento significativo foi constatado entre os não-fumantes. Por outro lado, é importante constatar que o estudo foi realizado no Reino Unido onde uma população local apresenta perfis de alto risco, dada a proporção de pessoas que não comem uma quantidade suficiente de vegetais, consumindo 15 a 30 vezes mais Omega-6 que Omega-3 e permanecendo inativas com um excesso de peso.

Se a França é também gravemente tocada pelo “malbouffe” (alimentação errada), a amplitude do fenômeno não é tão alarmante quanto além-Mancha: não é exatamente o abuso de um fator alimentar particular que determina a exposição ao câncer mas a qualidade da higiene de vida em geral. Se não se pode considerar estes estudos superficialmente, é no entanto conveniente comunicar razoavelmente os fatos em torno aos resultados para não cair na desinformação. Um estudo científico não pode com efeito ser resumido a grosseiras simplificações no estilo “o álcool é cancerígeno desde a primeira taça de vinho” e deve ser apresentado com as hipóteses e o contexto que determinaram seu procedimento.

Conclusões criticadas tanto pelos vinicultores
como pela comunidade médica


O professor Henri Joyeux, cirurgião cancerologista da Faculdade de Medicina de Montpellier e especialista nas relações entre nutrição e câncer declara que “o estudo (do Inca) confunde os consumidores regulares de álcool forte (uísque, gim, vodca) que aumentam incontestavelmente os riscos de câncer da boca e das enfermidades cardiovasculares, sobretudo se são acompanhadas do tabagismo”. Ele sublinha de passagem os aspectos positivos do consumo de vinho durante as refeições como uma digestão facilitada, a prevenção de infecções urinárias e a constipação.

Jean-Charles Tastavy, presidente dos Vinicultores Independentes de Hérault, estuda com a comunidade médica a possibilidade de uma ação na justiça contra os métodos e argumentos utilizados nesta affaire. Ele aliás já impetrou em nome da associação Honneur du Vin um recurso administrativo junto ao Ministério da Saúde. Por sua parte, Vin et Societé (que representa o setor francês do vinho) observa que se o consumo de vinho na França foi dividido por dois em 50 anos, o número de cânceres, por sua vez, dobrou. É então difícil bem delimitar os laços de causa e efeito entre o câncer e o consumo do vinho.

Em todo caso pode-se razoavelmente dizer que quaisquer que sejam, eles não são determinantes. É preferível não enlamear a imprensa com informações erradas para evitar que sejam difundidas idéias totalmente desproporcionais.