¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, abril 13, 2009
 
CRACK PODE


Hoje, às sete horas da manhã, passei pela chamada Cracolândia. É uma região nas proximidades da rua Santa Ifigênia, cujo nome deriva do consumo do crack. Andrea Matarazzo, secretário municipal das Subprefeituras e responsável por um projeto de revitalização do bairro, já jurou de mãos juntas que o consumo da droga não existe mais no pedaço.

Pois bem. Hoje, às sete da manhã, numa das esquinas da Santa Ifigênia, centenas de drogados fumavam crack à luz do dia, outros dormiam dopados, em meio a sacos de lixo, fezes e urina. Há alguns meses, passei à tarde de táxi por uma das travessas do bairro. O cenário mais parecia uma daquelas ilustrações de Doré para o Inferno de Dante, uma espécie de porão de navio negreiro. A ruela teria uns cem metros e estava tomada, tanto nas calçadas como em seu leito, por um meio milhar de farrapos humanos, cachimbando livremente a pouco mais de uma centena de metros do 3º Distrito Policial.

Assustador. Nem taxistas ousavam entrar na ruela. Não ousavam nem tinham como entrar. Pergunta que se impõe: se nem o Estado nem a municipalidade têm condições de coibir o consumo da droga em uma pequena área de um bairro, como pretende José Serra proibir o fumo nos 27.500 bares e restaurantes de São Paulo – 300 mil no Estado – com apenas 250 fiscais? Que, diga-se de passagem, não estão nem um pouquinho dispostos a serem deslocados de suas funções no PROCON e no Serviço de Vigilância Sanitária para caçar fumantes dia e noite pela cidade.

Crack, que é ilegal, pode. O que não pode é fumar, que nada tem de ilícito. Ora, contem outra.