¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, abril 05, 2009
 
A DOENÇA NACIONAL


Sempre que falo em afonsocelsismo, não falta leitor mais jovem que queira saber do que se trata. A palavra não está dicionarizada, mas deveria estar. Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior foi um professor e poeta medíocre mineiro (1860-1938), autor do delirante Porque me Ufano de meu País, uma espécie de ode açucarada ao Brasil, onde tudo é lindo, divino, maravilhoso. A palavra pode também ser traduzida por ufanismo. Não por acaso, Afonso Celso foi um dos criadores desse asilo de mediocridades, chamado Academia Brasileira de Letras. Para dar uma idéia do que seja afonsocelsismo, reproduzo o capítulo XVII de Porque me ufano... Pelo jeito, a moda chegou à China. Afonsos Celsos, os encontramos em todas as esquinas. São completamente cegos às mazelas nacionais e geralmente reagem com violência quando alguém as denuncia.


Riquezas naturais do Brasil

Demonstraram os economistas não constituírem os minerais preciosos a única nem a principal fonte da riqueza de um país. Entraram a sustentar que a lavoura e a indústria pastoril valem mais que o ouro e os diamantes, consistindo a verdadeira riqueza na abundância dos produtos indispensáveis à manutenção da vida. Ainda, sob esse novo aspecto, é imensa a riqueza do Brasil que pode produzir tudo quanto reclamarem as necessidades físicas ao homem.

Inúmeras as suas plantas aproveitáveis na alimentação, na indústria, no comércio, na medicina.Entre as palmeiras, denominam os índios algumas — árvores de vida, de tão úteis, pois fornecem material para embarcações e vários utensílios, fibras para tecidos, frutos doces e nutritivos, licor refrigerante e agradável, enquanto as largas folhas servem para cobrir, em lugar de telhas, as habitações feitas com pranchas das mesmas árvores. Possuem, de mais, uma espécie de cera, de que se fabricam velas para a iluminação.

Nas enormes matas brasileiras, quantas resinas e bálsamos de preço, quantas deliciosas árvores frutíferas! As dos seringais, indígenas, e as do café, exóticas, mas perfeitamente aclimadas, são genuínos tesouros vegetais. Há a árvore do pão, a árvore do papel, a árvore da seda, a árvore do leite, cujos frutos, folhas, fibras ou sucos, oferecem as propriedades e as aplicações das espécies de que lhes proveio o nome.

O milho e a mandioca já eram cultivados pelos índios. O arroz é silvestre em várias regiões. Prestam-se a qualquer cultura as terras do Brasil, de fertilidade proverbial. Verdadeira maravilha a uberdade da terra roxa que o calor e a umidade bastam a fecundar. As laranjeiras produzem, sem trato. Nalguns pés, em Mato Grosso, as laranjas, já muito doces, que murcham no galho, reamadurecem dulcíssimas, — verdadeira resurreição. O solo compensa larga e generosamente, — agradece, na frase popular o mais leve cuidado que se lhe consagre. As sementes plantadas adquirem maior força produtiva que alhures. Ao lavrador é fácil tirar das suas terras tudo quanto precise, exceto sal, de que, aliás se encontram no Brasil grandes jazidas. Quase todas as culturas dão duas colheitas anuais.

Um país assim está em condições de se tornar o celeiro do mundo. Há nele, em climas diversos, vastas pastagens, fartamente regadas, às quais se adaptam todas as raças de animais úteis. Já importante, a indústria pastoril destina-se a abastecer a Europa, pois é susceptível de desenvolvimento extraordinário.

Tribos selvagens vivem exclusivamente da caça e da pesca, tão profusas que permitiram outrora as longínquas expedições dos bandeirantes, desprovidos de tudo. Confia-se à natureza a criação do gado, de que milhões de cabeças povoam os campos. Consiste o só trabalho do proprietário em reunir, uma ou outra vez, no lugar adequado, os rebanhos para marcar as crias e apartar as reses vendidas.

E as abelhas que compõem delicioso mel? E as tartarugas de carne saborosa, cujos ovos fornecem manteiga, e cuja casca serve para o fabrico de objetos de arte, utilização também peculiar a muitos insetos brasileiros? Encontra-se no Brasil matéria prima para quaisquer manufaturas. Durante a guerra do Paraguai, com elementos exclusivamente nossos, construímos em poucos meses, nos arsenais do Rio, excelentes vasos de guerra. Os gigantes das nossas florestas servem, como nenhuns outros, para a construção de navios, casas e móveis de luxo. Conquistam as suas madeiras o primeiro lugar nos concursos internacionais, subindo a milhares as espécies classificadas, famosas pela beleza e resistência. Encheria volumes a sua simples enumeração, de que só ministraria idéia um tratado de botânica.

Em suma, subsolo, solo, ares, selvas, águas, está tudo no Brasil cheio de vida, e vida é riqueza. Não depende ele do resto do globo. Poderia, se quisesse, erguer, sem prejuízo material, em torno das suas fronteiras, a muralha da China.